Não sou um Pierre Bourdieu, mas faço o melhor que posso.
Interrompendo apenas por um momento as notícias romanescas do nosso querido amigo Andreas Der Mann (rs), gostaria de relatar minhas curiosas observações sobre o evento mais celebrado da nossa geração (80 e 90's): a balada.
Antigamente, eu ouvia o termo e me lembrava das canções de antigos menestréis espanhóis ou portugueses, ou de forma menos solene, as canções românticas de artistas do nosso tempo e do tempo das nossas mães, avós... coisas como "F... Comme Femme", ou "Love me, Tender", ou ainda "Michelle".
Salvatore Adamo mostrando sua atraente e elegante voz sem sincronia com o video
Mas fiquei mais velha e descobri que balada significava outra coisa, aparentemente mais excitante, mas bem mais boba de fato.
Na última sexta-feira foi meu aniversário. Chamei dois amigos e minha irmã para irmos a uma festa de rock (segundo o que anunciavam no site da casa noturna chamada Pista 3, do monopólio carioca Grupo Matriz). Gosto de festas de boa música, você paga, não conhece ninguém, ninguém te convidou, mas isso é igual pra todos... pagou, entrou, bebeu, dançou. Democracia das festas, você não tem que disputar a atenção de algum anfitrião ou rezar para que venham à sua festa.
No ano passado, fui à Casa da Matriz, que tem um ótimo ambiente, espaçoso, toca música boa, (de rock indie-eletro-pop a Creedence Clearwater Revival), e saí 4h30. A casa tem lounge com obras de artistas jovens, fliperama,, duas pistas e cardápio de bebidas variado, incluindo uma elegante renomeação, "Espanhola, para a deliciosa bebida com nome nojento, "Pau na Coxa" (vinho e leite condensado). Ao contrário da matriz (Casa da Matriz, criativo, hein? É que a casa fica na Rua da Matriz, perto da Igreja da Matriz, em Botafogo... qualquer coisa perguntem ao Papa Ratzinger... Andreas!), a Pista 3 é um bunker como qualquer casa noturna feita para as baladas da minha geração em diante: um buraco isolado acusticamente com banheiros minúsculos, um bar para que as pessoas possam encher a cara, uma pista com música ruim (Black Eyed Peas et al) pesada, mas tudo bem para quem já bebeu o bastante, e luzes piscando no breu, onde um monte de gente se amontoa e não podemos ver a cara de quase ninguém. Foi lá que (tentei) celebrei meus 29 anos.
Depois de dois chopps e uma taça de espumante, é possível reduzir seu senso crítico a um nível de rio calmo e perene sem chuva, mas não esvaziá-lo. Você dança meio sem graça a uma música que tem uma batida 2/4 repetitiva e luzes que brilham no fundo da sua retina com uma rapidez, e tantas pessoas sem identidade à sua volta quais fantasmas. Um homem passa mal com a cara numa lixeira. Outros dançam, outros só ficam parados no meio da turba à caça de vítimas. Porque eles se dizem "caçadores". Meu pai dizia: homem tem que trair, porque é caçador. Então, o machismo de homens como meu pobre pai foi recompensado com a humilhação de caçar num aquário preto regado a Absolut. Boa sorte.
Um cara fortinho me encarava e eu sem ânimo para aquele drama tragicômico saí à francesa e fui para o segundo piso, onde havia uma mesa de sinuca. Fiquei numa fila do banheiro onde havia 5 ou 6 meninas falando pelos cotovelos de forma ridícula, bêbadas, com suas maquiagens e roupas dark e pseudo-alternativas saíam pela culatra num espaço de menos de 2 m². Quando voltei à pista, o fortinho havia avançado sobre uma amiga e aparentemente se deram bem. Ufa. Mas quando eu me cria salva, aparece outro fortinho que me tasca um : "queria te conhecer". Aff. Para minha surpresa, ele depois me apresentou ao seu "peguete" (como se diz na gíria carioca super modernosa sobre pessoas com quem se mantém um vínculo sexual momentâneo sem compromissos futuros), para me dizer de forma indireta que ele era gay, e que uma amiga dele gostou muito de mim. Puxa, eu disse, é um elogio, mas não gosto de meninas. E assim seguiu-se a noite, eu levando cantada de meninas, ou de homens bêbados, por outro lado. Não, caro(a) leitor(a), eu não peguei ninguém.
O que mais me espanta na minha geração é a imensa capacidade de eles viverem cenas repetidas e nunca se cansarem. O cara bebe, bebe, e passa mal... aí bebe de novo. A menina fica com um, fica com outro, beija, beija, e fica com mais um. Elas repetem seus padrões de vestir, suas bolsas e sapatos, suas maquiagens, algumas vezes "dark", pois elas têm estilo, não se existe, o estilo existe antes. Os meninos com as mesmas posturas de segurança na frente de supermercado ou de salva-vidas de piscina de clube. E as cantadas... meu Deus, que frases hediondas. A gente tem que rir mesmo, não é simpatia...
Não sou contra o hedonismo e o descompromisso, eventualmente. Mas ser livre não é o mesmo que ser vulgar e repetitivo. Minha geração em diante... sofre-se um mal que é o mal do desamor, do desacato, do desrespeito, da desconsideração, do desleixo. É basicamente uma DesGeração. Todo um vazio, uma bocarra de Moby Dick à nossa espera, e os ignaros e tolos nunca pareceram piores. Nossos inimigos começam em nossos espelhos, ao contrário da geração de nossos pais e avós, cujos inimigos eram o Capitalismo, o Conservadorismo, o sistema, o governo, as leis racistas, a segregação, a brutalidade. De fato estes ainda são nossos inimigos, mas minha geração prefere ir à balada (não a dos cantores ultra-românticos de antigamente) para beber e cair, e assim, no breu e no desperdício de energia e calor, olvidar o front. Olvidar-se e lançar-se numa terra de ninguém. Nenhum futuro, nenhum passado, nenhuma piada terna, nenhuma conexão. No man's land.
Nós como seres humanos, em grande parte pelo sistema de crenças judaico-cristão, tendemos a naturalmente pensar que o mundo é o nosso playground pessoal, e que tudo o que nos rodeia foi criado exclusivamente para nosso bel prazer.
Em uma cidade como Roma, está escancarada em faces de rochas nuas a questão da transitoriedade e relativismo de tudo o que nos rodeia. Ao escavarmos uma rua, temos um verdadeiro mapa da história e psique humana. Lembranças recentes da Roma enquanto moderna metrópole representada em algum maço de cigarros jogado em um canto qualquer, se misturam com evidentes traços estratificados de períodos mais antigos: Traços Barrocos, Renascença. Bairros medievais. Caravaggio trabalhando em Roma em 1592 até 1606. A Comuna Romana em 1084. O sagrado Império Romano, em 799. Domínio Bárbaro e Bizantino em 480. A morte de Marco Aurélio em 180. Julio César invadindo Roma em 49 A.C. com sua Legião. A formação da República em 509 A.C. Domínio Etrusco em 650 A.C. Traços de fortalezas datando de 800 A.C nas margens do rio Tibre. Evidencias de movimentos migratórios Indo-Européias para a região, em 2.000 A.C. Saímos da história arqueológica para adentrar os reinos dos mitos e lendas, tentando localizar no tempo, Rômulo e Remo, os órfãos criados por uma loba que supostamente fundaram Roma em 753 A.C.
Nos acostumamos a pensar as metrópoles por nós criadas, como exclusivamente nossos domínios.
Apesar da história que permeia esta cidade, não são os humanos que dominam e governam-a. Seus habitantes mais dignos são notoriamente dotados de uma realeza particular. São os gatos de Roma.
Em várias instâncias, os gatos Romanos possuem mais direitos legais do que as pessoas. Muito sensato, eles fizeram por merecer em sua história felina particular. Acaso você tenha a sorte de um gato nascer na porta da sua casa, por lei ele tem o direito legal de morar em sua propriedade – Você não tem a obrigatoriedade de cuidar dele. Mas se ele quiser se sentar em frente a TV e assistir a algum programa qualquer, deixe-o. A sua vida e a dele serão mais fáceis.
A origem destes gatos em Roma está diretamente a queda do antigo Império Egípcio. Quando este sucumbiu, seus gatos embarcaram em navios mercantes e se espalharam pelos quatro cantos do Império Romano, e após, mais além, para o mundo. Neste caso particular, foi algo bom para Roma, pois exerceram importante função no controle dos ratos, especialmente nos idos de 1300, quando a peste bubônica assolou acá estas bandas.
Infelizmente, a Igreja Católica Romana fez o favor de considerar os gatos como bruxas, e logo ordenou a caça aos gatos. Como existe uma curiosa simbiose entre Roma e seus gatos, com tal caça logo a população de ratos dominou o Império, e a peste se espalhou por todos os cantos.
Com a modernização da Igreja, os gatos logo retornaram a Roma. Mas se tornaram ineficazes como agentes controladores dos ratos pois, os mesmos tiveram coisa de 7 séculos para crescer e se desenvolver, período este que nós conhecemos como a era das grandes fogueiras – totalmente síncrono com o período da caça as bruxas e Santa Inquisição.
No último censo do departamento de direitos dos animais da comuna de Roma - Ufficio dei diritti degli animali – a estimativa é de que a população felina Romana gira em torno de 300.000 a 500.000 gatos errantes pelas ruas, praças, monumentos, cemitérios, hospitais e institutos religiosos Romanos. Geralmente escolhem estes lugares como habitat pois ali recebem alimentos, abrigo e proteção. É interessante perceber que todos os sítios arqueológicos, contam com uma espécie de comunidade local felina. São tranquilos, na deles. Costumam ficar espalhados, sentados, em cima de antigas colunas de ruínas antiquíssimas.. Escondidos em catacumbas.. Ou vigiando os cemitérios e templos. As vezes, vê-se gatos correndo atrás de ônibus.. Ou pendurados em janelas de prédios de apartamentos com suas unhas.
- O que eles pensam, enquanto olham os restos da Roma antiga? Perceberam eles, o nascer, florescer, auge e declínio do Império Romano?
A região do coliseu conta com algo entre 200 a 500 gatos, mas o verdadeiro santuário de gatos de Roma é o “Largo di TorreArgentina“, um dos mais antigos templos de Roma, datando algo entre 400 a 300 A.C.
- Me pergunto se seriam tais gatos descendentes dos que ali testemunharam Julio César ser esfaqueado por seu rival Brutus, em 44 A.C.?
Em comparação ao coliseu, tal templo e suas colunas são minúsculas, por isso impressiona sua população de 300 a 400 gatos. Ali, encontraram refúgio do caos e tráfego da região central Romana. Recebem alimentação, são cuidados e tratados por um grupo internacional de voluntários, que levantam fundos organizando rifas, jantares e mercados de pulgas a céu aberto, bem como recebendo doações privadas de turistas que, não raro; parecem muito mais interessados nos gatos em si do que nas ruínas. Uma coisa legal é que qualquer um pode se voluntariar ao grupo da Torre Argentina alimentando os gatos, ou até melhor; limpando suas pequenas caixas..
Geralmente são velhas senhoras chamadas “Gattare” que cuidam destes felinos de rua. Alimentam-os todos os dias com seu próprio dinheiro. É comum vê-las ao amanhecer ou anoitecer, empurrando seus carrinhos cheios de comida para os gatos Romanos. Até mesmo restaurantes as vezes costumam colocar pratos de comida sobre bonitas toalhas de mesa e uma vela bem como uma garrafa de Chianti em becos de Roma, para os gatos. Não aceitam reservas, claro; mas os gatos se saem bem. Parece brincadeira, mas não é.
Os gatos Romanos, embora poucos sabem disso, são assunto sério.
Como é importantíssimo a vacinação e castração, os serviços veterinários públicos tratam como prioridade os cuidados a população felina Romana, e acompanham de perto a comunidade felina. E, foram além. A Comuna Romana, baseada em uma lei Italiana nacional de 1991, baniu a morte de cães e gatos de rua, e protegem-nos com o título de “patrimônio biocultural”.
É de encher os olhos, perceber e entender o quanto os gatos são tratados e a noção que aqui existe, de que os gatos pertencem a própria cultura Italiana...
Lhes peço desculpas pelo blog estar um tanto jogado as moscas por hora.
Mas, por um ótimo motivo – ao menos para mim hehehe
Ocorre que estou por uns tempos em Roma, e daqui sairei por uma tour pela Europa nos próximos meses. Mas o blog não foi abandonado de forma alguma, prepararei algumas postagens sobre minhas andanças por aí...
Roma é uma cidade fantástica, não tem absolutamente NADA a ver com qualquer ideia pré-concebida pela mídia, cartões postais & imagens que costumamos comumente ver. Apenas estando aqui para entender isso.
Em meu primeiro dia por aqui me chamou a atenção a quantidade de musicistas da boa boemia que pegam seus instrumentos – Cellos, Violinos, Violas, Contrabaixos etc – e sentam-se em frente a monumentos históricos seculares e ficam lá, tocando.. É impressionante!
Soube de uma escola de música voltada ao Cello aqui nos arredores, 3 aulas por semana de 1 hora cada, pela bagatela de 120 Euros/mês. Pode ser uma opção interessante acaso eu decida lançar âncoras de vez por aqui, em janeiro, quando encerro minhas andanças pela Europa. Um fato curioso sobre esta escola é que me avisaram o seguinte: Esqueça tentar entrar lá com instrumentos chineses ou industrializados, você sequer conseguiria fazer a inscrição.
Por outro lado tive uma grata surpresa; é possível comprar instrumentos Italianos de Luthier, nível intermediário, por 300,00 Euros.
Bom, veremos o que o futuro me reserva nesse sentido...
Okays, vou falar de um assunto meio polêmico aqui, hein? Provavelmente vão querer me crucificar, difamar e colocar pra ouvir calypso e sertanejo por duas horas seguidas (por favor, não façam isso, tenham piedade!). Mas vamos lá.
Acho que uma das maiores dificuldades em se aprender a tocar violoncelo está na mão esquerda. Ah, quer dizer então que você manda ver no arco, sabe fazer todos os golpes? Grande coisa. Isso não vai adiantar nada se a sua mão esquerda for burra.
E a minha é.
Talvez pelo fato de não ter começado a tocar violoncelo ainda criança, talvez pelo fato de ter tocado baixo elétrico durante muito tempo... a verdade é que a minha mão esquerda é burra demais. Desde que passei pro violoncelo, então, sempre tive muita dificuldade em acertar a entonação. Vez ou outra, saía alguma nota desafinada. E eu notava e ficava muito puto com aquilo tudo.
Olha a diferença...
Então fui pesquisar na intertet dicas, métodos, enfim, algo que me pudesse ajudar a corrigir esse problema.
Descobri que alguns professores, ao ensinar os primeiros passos de cello à crianças, costumam utilizar um método de colar fitinhas coloridas (tapes) no braço (fingerboard) do instrumento. Assim, a criança memoriza com maior facilidade a correta posição da mão esquerda e, ao depois, quando houver mais segurança, pode-se simplesmente retirar as fitas do braço.
Agora vai...
Não contei conversa e enchi o braço do meu cello de fitinhas. Daí, quando cheguei no dia seguinte pra aula, tive que aguentar piadinhas do meu professor de cello, "blábláblá", "você nunca vai aprender desse jeito", "tu vai se acostumar a ficar olhando pro braço e não é pra ser assim", "mimimi", etc. De fato, vi que tem muitos professores que condenam o método. Mas, em verdade, eu vos digo: tô nem aí. Não preciso ser o maior violoncelista do mundo, só quero tocar minhas músicas e tirar um som minimamente decente do meu instrumento.
Aí então vai um conselho de amigo: sinta-se à vontade para experimentar e buscar o método que mais se encaixa a sua necessidade e ao seu jeito de tocar. Nem todo mundo gosta do método "Suzuki", por exemplo. Busque, portanto, aquele de seu gosto. A sua forma de tocar não precisa ser igual à de todo mundo. Afinal, não é porque é diferente que é errado, certo?
“Melagkholía” - Este é o termo em grego do qual é derivada a palavra medieval melancolia. A “condição de ter a bílis negra” - formada por mélas, negro e kholé, a bílis - foi definida pelos Irmãos Grimm como uma explicação para o temperamento melancólico. Supunha-se que tal temperamento bem como o abatimento e desalento a ele vinculado eram causados por um excesso de bílis negra, pela “propriedade defeituosa do sangue misturado com bílis negra, queimada.”
Nos dias atuais a definição foi refinada, sendo calcada em diversas causas e explicações diferentes, de acordo com a escola, formação bem como entendimento de mundo de quem a interpreta e de quem a vivencia.
Pois bem.
Ao menos ao meu ver, geralmente entendo que o mundo é composto por realidades objetivas e subjetivas. E, me é curioso perceber as enormes diferenças de interação nestas realidades, pelas pessoas que carregam em sua essência tais traços de melancolia e, portanto, mais suscetíveis ao plano subjetivo, e as pessoas que não possuem tais traços de maneira tão exacerbada.
Neste sentido, penso que o termo melancolia pode ser um tanto enganador. O senso comum costuma associá-lo a incapacidade de aceitar e explicar a existência humana e sua inserção no mundo que nos rodeia. Fala-se do desalento diante da imperfeição deste mesmo mundo, bem como o quanto este estado da alma pode se tornar sombrio; passando do completo desestímulo à existência totalmente desesperançada.Por experiência própria, é a constante sensação da incapacidade plena de se escapar da paralisia, da loucura e da vertiginosa queda atrelada a tudo queé obscuro em vários aspectos do mundo no qual está inserido.
No entanto, existe um outro lado nesta descrição.
Se perguntado para mim se gostaria de me livrar deste eterno estado melancólico, eu, bem como vários outros que costumam transitar pelo lado sombrio da alma, possivelmente teríamos duas respostas diferentes – cada qual, destinadas a momentos específicos. Em meus momentos de maior distanciamento em relação a mim mesmo, possivelmente eu não deixaria a melancolia de lado.
Ora. Se tal característica nos permite uma ligação com os estratos mais profundos da subjetividade do que entendemos por realidade e justamente por isso tornando a realidade em si subjetiva; não é necessária uma perspectiva real de alguma espécie de saída. A melancolia; imersa em um profundo estado de tristeza, para algumas pessoas manifesta-se como uma espécie de companhia do prazer, do belo, do desejo pela transcendência e da erudição.
Neste sentido é interessante perceber que o ideal da melancolia sempre esteve presente como força propulsora das grandes criações artísticas. De fato, é justo dizer que tal conceito não só é uma referência universal nas obras de arte significativas, bem como é um traço psíquico essencial ao espírito criativo.
Me faz pensar em uma coisa interessante. Em partes, a essência das reais belas artes encontra-se na junção de uma profunda tristeza do ser humano derivado de sua consciência de finitude inserida em uma percepção de existência infinita, com idéias tão diversas quanto numerosas em uma infinidade de campos de conhecimento humano. Em outras palavras: A real manifestação artística se dá no momento em que o ser humano tenta descrever os estratos subjetivos da realidade.
Assim, percebe-se que a melancolia não significa apenas o estado de tristeza paralisante. Significa também a possibilidade de uma nostalgia criadora.
De qualquer modo, tal conceito não é novo. Sabe-se da menção no século IV A.c. de uma relação entre a melancolia e a inteligência no círculo Aristotélico, o célebre questionamento: “Por que motivo todos os homens extraordinários, quer tenham-se destacado na filosofia, na política, na poesia ou nas artes plásticas, são notoriamente melancólicos?”
Colocando-se o questionamento Aristotélico sob a luz da definição dos Irmãos Grimm é possível supor que uma “bílis negra” bem dosada, é capaz de dar asas ao estado de ânimo melancólicolevando-o a realizações intelectuais fora do comum.
O fato é que tal mecânica da psique a serviço das belas artes está mais presente em toda a história da arte do que geralmente é percebido. Na iconografia Cristã, percebe-se a frequente união do motivo do luto a melancolia, expressa em quase todas as manifestações de arte sacra. Tais trabalhos costumam elevar a melancolia a um outro patamar, no qual a própria paisagem das telas entram como espécie de atores figurantes na representação de determinada cena; sendo frequentes as ambientações em ambientes terrosos, numerosas ruínas e monumentos desmoronados. Mesmo na música sacra, facilmente percebe-se uma inspiração existencialmente melancólica.
No barroco, encontramos a melancolia que gira em torno da finitude. A morte é tida como ponto culminante da alma melancólica emuitas vezes é representada através de alegorias sombrias. No entanto, paradoxalmente é justamente através da expressão artística que a morte não precisa ser definitiva. O valor de uma obra pode se opor ao desaparecimento do artista.
Nos dias atuais, observo um fenômeno interessante:
A expressão artística real muitas vezes está baseada na aliança entre a melancolia e a sensação de cerceamento em um mundo cada vez mais dilacerado. Hoje uma série de atores entram na equação sobre a definição da produção artística. Uma vez mais menciono a música-produto de consumo. É com curiosidade que percebo que a banalização da arte que a transforma em algo descartável; justamente através da melancolia, tende a inspirar vários artistas reais a exercerem uma pressão produtiva igual e contrária em nome da erudição clássica, promovendo uma espécie de resistência contra a arte-produto. É justo dizer que em ultima instância é a melancolia inerente ao espírito do ser humano que dita o que será lembrado mesmo muitas décadas depois, e o que será esquecido dentro em pouco tempo.
Todos os exemplos mencionados acima dividem a mesma origem em termos de mecânica artística: -Na elaboração da obra cujo catalisador é a estética melancólica; as principais fontes das quais o artista utiliza estão o seu microcosmo, como símbolo perfeito do mundo e o macrocosmo, o auto-retrato do artista que reflete sua própria melancolia sobre a a obra na qual ele trabalha. Assim, seja através da música, pintura, literatura etc; o objeto-arte corporifica a essência melancólica e a dor introvertida que queima por dentro sem ser percebida e, portanto, não compreendida, por parte daqueles que rodeiam o artista...
Interessante, não?
Relevantes:
Psicanálise da Arte. Ed. Brasiliense
A Crueldade Melancólica. Ed. Record
A Negação da Morte: Uma Abordagem Psicológica da Finitude Humana, Ed. Record
Bright star, would I were stedfast as thou art-- Not in lone splendour hung aloft the night And watching, with eternal lids apart, Like nature's patient, sleepless Eremite, The moving waters at their priestlike task Of pure ablution round earth's human shores, Or gazing on the new soft-fallen mask Of snow upon the mountains and the moors-- No--yet still stedfast, still unchangeable, Pillow'd upon my fair love's ripening breast, To feel for ever its soft fall and swell, Awake for ever in a sweet unrest, Still, still to hear her tender-taken breath, And so live ever--or else swoon to death.
John Keats
Eis o retorno triunfal de Jane Campion, a diretora e roteirista que quase foi a primeira mulher a ganhar o Oscar de melhor direção pelo perfeito "The Piano" nos anos 90 (muito mais merecido do que o de Ms. Bigelow por "Guerra ao Terror", um filme que esqueceremos em alguns meses). Campion estava sumida. Fez alguns curtas e filmes não muito bem recebidos como o duvidoso mas interessante "Em Carne Viva" com Meg Ryan, e agora ressurge como a talentosa cineasta que amamos, com sua sensibilidade grandiosa e universal mas ao mesmo tempo profundamente feminina. Digo isto porque creio que Jane Campion seja uma das poucas artistas que produzam obras especiais, e uma de suas características é que apesar de universalmente apreciável e sensível de forma ampla e humana, pode-se dizer que um homem não faria um filme como os dela. Pode fazer pior ou melhor, mas não exatamente como ela faz. A visão de Campion é feminina não somente por ela ser mulher, mas por ela derramar uma visão feminina de uma certa forma que mesmo outras mulheres não conseguem. Ela deixa sua marca sutilmente, a abordagem da poesia no filme é feminina, é de uma mulher inteligente, e cuja idade ou maturidade não é revelada, mas talvez este seja o eterno feminino que escritores machistas de todos os tempos tentaram defiir de forma pejorativa, e nunca realmente entenderam do que se tratava, como ocorre a um dos personagens de "Bright Star", a nova obra de Ms. Campion.
O filme de Jane Campion, há pouco tempo nos cinemas brasileiros e certamente sem muita promessa de arrasar os quarteiroes arrasados por "Eclipse" e sua horda adolescente, trata do Amor na sua forma mais sublime, pura, do grande amor, e sua forma de anjo não é menos avassaladora, porque promete a Eternidade. Conta o fim da curta vida do genial poeta inglês John Keats, que mesmo tendo desaparecido nas sombras deste mundo aos 25 anos, tornou-se uma das mais brilhantes estrelas do céu do Romantismo na literatura britânica e de todos os tempos. Tudo nele é grande e belo, mas suave e terno. O tempo passa lentamente, apesar da pouca idade dos protagonistas. Eles são os eternos amantes. Não há sexo nem qualquer insinuação desta possibilidade. Afinal, estamos no início do século XIX, e naquele tempo amores eram proibidos por menos, como o fato do amante ser um pobre poeta sem renda ou meios de sustentar esposa e filhos. As pessoas morriam de tuberculose. Levantar a saia era uma devassidão sem nome. Por isso as paixões tinham chance de serem estes sonhos de verão que levavam poetas à loucura, donzelas ao suicídio, e as promessas era eternas.
As cenas trazem o cuidado particular com a luz e a delicadeza exigida pela história (real), o que se transpõe em momentos de passeios tranquilos em campos de lavanda, repousos sobre copas de árvores centenárias, caças a borboletas, crianças que se assemelham a anjos, e uma seriedade que somente poetas conhecem na imortalidade de suas solidões ao mesmo tempo efẽmeras. Tudo o que é belo e verdadeiro é efêmero, é passageiro, vai morrer, é o que ensina este filme. A eternidade está contida numa semente de trigo. O verão se transforma em triste gelo, a xistência torna-se uma lembrança na madrugada. O enorme prazer se transforma em lágrimas. Mas quem deseja uma passagem segura e amarelada por este mundo? Melhor uma morte aos 25 anos carregando-se na barca de Caronte a memória e o desejo do grande amor, do que um envelhecimento vazio e auto-contido.
A música é de particular importância, mesmo que menos do que foi em "O Piano", quando a trilha foi criada pelo grande mestre minimalista Michael Nyman. Os momentos mais delicados sofrem pequenas intervenções de um cravo, ou de cordas hesitantes. Mas o aparecimento da versão em "orquestra humana" daSerenata No 10 em Si Bemol Maior K 361 de Mozart é de vital impacto. Somente Mozart possui tamanha inocência e grandeza pra intervir numa história onde tudo possui, como as frutas no outono, um tempo correto para amadurecer, onde o tempo passa tão devagar e delicadamente com a intensidade de uma tempestade, quando parece que nunca veremos o sol, ou quando o verão está em seu auge, e pensamos que nunca mais saberemos de novo o que é o deleite de dormir numa cama quente num noite gelada. Como tão bem é citado na película,
I almost wish we were butterflies and liv'd but three summer days--three such days with you I could fill with more delight than fifty common years could ever contain.
- John Keats, Letter to Fanny Brawne, July 1, 1819 Destaque seja dado, entre todas as cenas de mais absoluta beleza, para Fanny e seus irmãos com dezenas de borboletas dentro do quarto. É completamente inesquecível.
O amor perfeito existe, mas está apenas disponível para quem tem o coração tão livre como um bebê, e está disposto(a) a perdê-lo nas pedras, ventos e escuridão do tempo que galopa. O personagem machista que citei no início é o melhor amigo de Keats, que deseja a todo momento condenar as mulheres e sua suposta futilidade. Aqui entro com uma comparação. Seu amigo é a personificação do excessivo racional que luta contra seus próprios desejos e por não ter maturidade nem grandeza, acaba sujando-se ainda mais na lama, condena-se por reprimir sua alma de forma tão mesquinha e infantil. São os que frequentemente vivem do status e do intelecto, de alguma forma de poder, e se sentem vivos e superiores porque são elogiados por seus pares acadêmicos. Mas são incapazes de criar grande arte porque não sabem viver. Nunca poderiam receber o beijo de Psiqué.
É preciso estar disponível à dor e ao retorno à infância para ter acesso ao Espírito. Esta é a uma das mais frutíferas ideias herdadas do Romantismo.
A propósito, é um filme muito triste também, claro. Você já vai entrando no cinema sabendo que John Keats morreu aos 25 anos, longe de sua amada, e o grande poema de sua vida, a paixão imensa que ele vivia, não pôde se concretizar completamente. Só aviso porque depois ninguém me acusará de ter recomendado um filme que deixou vocês chorando durante dias. Chora-se não somente pela tristeza e beleza daquela história, mas pela vida. Pela efemeridade, pela tragédia de haver pureza num mundo grotesco e por ela estar condenada, como os bebês estão condenados à morte desde que nascem, pela solidão dos que sonham, pelo suave respirar dos poetas em meio à turba que grita em jogos de futebol, entre carros, entre fumaça, sujeira e noites de neon regadas a álcool.
Outro detalhe é a beleza física dos protagonistas, específica, pensada para eternizar mitos. Campion escolheu uma atriz de beleza ingênua (pelo menos sua caracterização, vestidos, cor do cabelo, etc, tudo foi calculado para a exata composição de Fanny Brawne, a estrela brilhante de um grande poeta), e corajosamente, fora dos padrões de beleza de Hollywood: não é muito magra. Isso foi extremamente agradável de se ver, já que naquele tempo as mulheres não eram forçadas a serem esqueléticas ou malhadas. Não existia isso. Abbie Cornish está deslumbrante. E o sempre charmoso "com cara de rebelde sem saber, alienado e poético" (o que já aparecia no fantástico e polêmico "Perfume - A História de um Assassino") Ben Whishaw... por ele eu me apaixonaria à primeira vista. É sabendo destes efeitos que a atmosfera onírica é preparada pelos realizadores desta maravilha de cinema-poesia. Música, imagens, poemas. Um convite à Eternidade. Boa viagem a todos.
Já faz um tempinho que figura entre os autores do Vinho & Cigarros a Nathalia, esta pequena comedora consumidora insaciável de Baurus & afins. Curiosamente, é valido mencionar que a mesma de fato reside na cidade que leva o mesmo nome, e existe toda uma conjunção cósmica e inefável que explica isso, mas deixarei o lado oculto das coisas de lado no momento. (Afinal, se mencionar qualquer coisa cósmica envolvendo Bauru, teremos que automaticamente tentar entender porquê após a subida do Sr. Marcos Pontes ao espaço – o primeiro astronauta “Bauruense” (??) Brasileiro, sumiu um planeta: Plutão)
Me intriga que, a cada dia que passa nos meses que converso com ela, a cada dia tenho a séria impressão que a mesma tem várias características de transtornos de personalidades bipolares, bem como algumas pitadas de atitudes bordeline; o que geralmente bastante me agrada e me dá dores de cabeça. (Céus, porquê raios só me meto com gente maluca? hahaha)
Masss.. Como todos os outros autores do Vinho & Cigarros, a dita cuja é possuidora de um senso estético-musical apuradíssimo, e em vários sentidos, dá um banho em se tratando de erudito em cima deste que vos escreve – Não que eu seja realmente um digno conhecedor, antes, tenho os meus momentos. há há
Acredito eu que embora a grande maioria do que escrevemos por aqui seja muitas vezes voltado ao nosso querido Cello, esta representante da turma dos instrumentos mais graves – sim, ela está no conservatório de Tatuí aonde tenta aprimorar sua relação com seu Contrabaixo – é uma ótima aquisição para a equipe do Vinho & Cigarros. No entanto, ela também tem uma mente bastante aberta, e musicalmente dizendo se assemelha a mim em vários aspectos; principalmente em se tratando de gostos relacionados a bandas Européias mais underground, sejam estas que exploram uma pegada mais industrial ou que exploram um crossover do erudito com o rock. De tempos em tempos costumamos trocar figurinhas bem como algumas farpas e pentelhações. Nada muito grave. rs
Apreciadora de um bom vinho, definitivamente com o pé calcado em artes, prefere passar longe de qualquer coisa que produza fumacinhas fora incensos. Diz que um dia se muda para a Alemanha. Diz que um dia entra na OSESP. Diz que um dia manda a maioria das pessoas ao seu redor – incluindo eu – a merda. Diz que um dia atropelará todo mundo em um tanque de guerra moderníssimo. E o duro? É que eu sei que a dita cuja consegue... rs
Não se enganem, no fundo no fundo, apesar desse mal humor todo, é uma graça de pessoa...
Em tempo:
O Bauru original foi inventado nos anos 30 pelo radialista Casemiro Pinto Neto, no balcão da lanchonete paulistana Ponto Chic (Praça Oswaldo Cruz, 26 – Paraíso), contendo os seguintes ingredientes:
Camadas generosas de rosbife caseiro, rodelas de tomate, pepino cortado bem fininho, mistura de quatro tipos de queijos derretidos no pão francês sem miolo.
Seja muitíssimo bem vinda Nath’s, puxe uma cadeira, sirva-se de vinho... Tentarei manter meu cigarro longe de você... ; )
Existe toda uma infinidade de pequenas pérolas do mundo musical que costumam transitar elo meu Ipod todas a vezes que coloco-o para sincronizar com meu PC.
Pequenos pois expressivamente, costumam localizar-se muito aquém de musicistas de maior talento em se tratando de musicalidade e concepção de obra. Pérolas pois ainda assim enquadram-se em um patamar de uma genialidade latente e conseguem trabalhar toda uma aura ao seu redor, criando, cativando e posteriormente alimentando uma hoste de fieis séqüitos; ávido publico consumidor com uma linha trabalho inusitada, totalmente fora do convencionalismo.
A tempos que penso no esboço uma resenha destas e apenas agora sinto-me confortável o suficiente para fazê-lo - Uma breve porém lúcida correlação entre artistas, artes, discurso e marketing visando a venda e a confusão e frenesi que tal causa na cabeça dos pequenos fãs mais extremistas.
Julgo Emilie Autumn um ótimo exemplo de uma pequena centena de musicistas que adotam e fazem uso de um discurso que objetiva o puro entretenimento musico-teatral, aliado ao livre prazer de construir, deturpar e desconstruir ideias e imagens provenientes de uma mitologia comum que quase nunca correspondem à realidade objetiva.
Uma das premissas em que se apóia toda a obra da musicista em questão – novamente, chamo a atenção para o fato de tratar-se de apenas um exemplo entre vários – é a forte influência de sua vida privada bem como igualmente forte inspiração em uma 'suposta condição feminina' durante a era Vitoriana Britânica como bases de sustentação e coesão para o seu trabalho. Ao meu ver, excetuando-se a função puramente recreativa, de resto basicamente visualizamos um enorme construto marketeiro visivelmente direcionado a um pré determinado publico consumidor desde a sua concepção até o fim; isto é, a comercialização do produto-arte.
Dando os nomes aos bois: Governada pela Rainha Vitória entre 1837 e 1901, a concepção de “Era Vitoriana” é restrita a um período histórico interno do império Britânico. Marcada por uma certa paz aparente, desenvolvimento industrial calcado na força motriz baseada no vapor, constantes novas invenções, observou-se a expansão do Império, bem como uma expansão interna de uma parcela significativa da classe média. A estes fatores - principalmente o acesso a educação – comumente dá-se a Era Vitoriana uma roupagem de modelo de sociedade bastante liberal dentro de seus usos e costumes.
No entanto, em sentido oposto ao descrito acima, sabe-se que outras características foram bastante marcantes neste período histórico: Uma sociedade marcada pela austeridade, formalidades excessivas e frivolidade exacerbada. Nos recônditos da cultura Vitoriana, também tais usos e costumes possuíam seu caráter pérfido; o enorme desprezo ao vício em todas as suas manifestações bem como o sexo. De fato, este provavelmente era o maior tabu a ser considerado nesta época, o lugar comum a ser assumido e desempenhado socialmente pela mulher; dona de casa e submissão à hierarquia sexual. Isto é, embora o caráter liberal de nossa sociedade atual, os avanços na questão submissão e hierarquia sexual ainda são temas controversos em várias partes do mundo.
Esta é a concepção romantizada e é dela que costumam derivar vários gêneros contemporâneos de cultura de nicho - ou cultura underground - tanto musicais quanto em outras formas de expressão comumente adotado pelos jovens: Citando um exemplo, temos o movimento Steampunk; que engloba vários dos elementos citados acima, tanto na questão estética bem como visão de mundo.
O fato ser uma visão romantizada das coisas é relativamente óbvio, e justamente por tal obviedade tende a passar totalmente despercebido as vistas de quem costuma se identificar com períodos históricos há muito encerrados: Citando Neil Gaiman – embora romancista, possui umas sacadas geniais em seus trabalhos – '(…) o primeiro erro é a falta de merda. Ora, é isso que as pessoas costumam esquecer sobre o passado. Toda a merda. Merda de animais. Merda de gente. Merda de vaca. Merda de cavalos. Era merda até as canelas. (…) piolhos, lêndeas. Câncer apodrecendo os rostos. Qual foi a ultima vez em que viu alguém com um tumor gigantesco no meio da cara? Hã? Exato'
Extremamente articulada e possuidora de uma inteligência impar bem como senso artístico bastante definidos, não é tarefa fácil analisar Emilie Autumn de maneira isenta, objetiva, e revela-se ser tarefa bastante complicada a tentativa de definir quais os limites de seu discurso que são ficcionais e quais os que são de fato, reais. De fato é comum em dias de hoje a tendência de certos artistas em seus diversos campos de atuação a tendência a elevar sua vida pessoal para o 'status' arte. Assim, novas e interessantíssimas duvidas surgem durante o processo de análise: 'o que é arte?' ou ainda; 'qual os limites da produção artísticas e vida privada?' e além; 'qual a função social das artes' nos dias de hoje?
A vida privada do artista enquanto motor de impulsão e alimento para a produção artística ou a utilização da mesma como lente interpretativa para a realidade e após, transformada em arte não só é aceitável bem como desejável. De fato, existe aí uma das essências do 'ser artístico'.
Mas existe a subjetividade, a classe, a elegância. E justamente estes quesitos aparentemente são deixados de lado por tais artistas. A capacidade de trabalhar as entrelinhas, o “instigar” a novas percepções que não são claras em um primeiro momento, apenas após uma reflexão da obra em si e não da imagem e imaginário que rondam o artista. Eis aí uma das respostas às perguntas propostas acima: Uma das funções da arte enquanto veículo informacional é a sua vocação e inclinação naturais a isenção e relativa independência do aparato de marketing; que a saber, é um dos pilares de sustentação de todo um sistema de estruturação social em um sentido amplo do termo. É a capacidade de afrontar o óbvio. De levantar questões. De desafiar o status-quo. E, naturalmente, rebelar-se contra um sistema de crenças e valores. A arte se alimenta do desarranjo do mundo através das lentes interpretativas de quem a produz. A arte em seu estado bruto, tende a barrar o marketing.
Comportamentalmente, ora, ninguém é 'cool' por escutar este ou aquele musicista. A vida cotidiana e dramas pessoais de ninguém é 'cool'. E se Emilie Autumn passou por uns tempos em uma instituição psiquiátrica tampouco isto pode ser considerado mérito de qualquer espécie. O que reforça minha tese de que a produção inteira da Emilie Autumn de fato é apenas mais um produto essencialmente destinado a um público caracterizado por comportamentos e identificações socialmente desviantes, tendo tornado-se mero assessório agregado a para fins de identificação coletiva. Ora, Alice Cooper assim o fazia na década de 70 e até hoje o faz com o mesmo sucesso, e de maneira muito mais sincera, convincente e em vários aspectos; mais fluida e orgânica do que Emilie Autumn.
A despeito da aparente sensação de estarem sempre a margem de um sistema, é óbvio que - embora em um nível não mainstream - tal público ainda assim se encontra perfeitamente dentro dos ditames tradicionais de valores pregados pela mesma industria que diz o que deve almoçar, vestir, assistir e ainda se preocupa com o bom funcionamento de seu intestino. Activia que o diga!
Não é nenhum segredo que este é outro artifício comum dentro do marketing: A manipulação da eterna roda da interrogação da significação social bem como sensação de pertencimento a determinado grupo social exclusivo em algo. E, este é um outro ponto interessantíssimo. Podemos dizer com certeza que Emilie Autum é uma daquelas artistas que transitam em um meio multimídia com conforto e maestria, alimentando seus fãs com uma – relativa – produção musical calcada na teatralidade, notas biográficas em forma de textos, poesias - embora existam sérias dúvidas quanto à qualidade literária das mesmas - e sua própria imagem; o carro-chefe de sua própria alegoria marketeira criando assim, justamente esta tal sensação de pertencimento.
De fato, dentro de determinados grupos sociais que sabidamente o quesito “imagem” é mais importante do que o “discurso” e “produção artística”; freqüentemente observa-se a enorme confusão em que os fãs são sujeitos ao serem expostos a produção artística, confundindo e muitas vezes até mesmo substituindo a obra como objeto de análise e reflexão, pelo próprio artista!
O que nos leva a um segundo ponto não menos importante: No quesito estético-musical, penso que é por demais necessária a separação da noção textual “pseudo” vanguardista, 'pseudo' alternativa, para assumir a posição e função de veículo desestabilizador do sujeito comum. O 'pseudo' drama pessoal deve ser deixado de lado para a ‘arte’ finalmente possa englobar o todo e assumir a experiência representativa das grandes artes. Do contrário, não será arte digna, será o objeto-arte descartável.
Uma coisa que costumo enxergar com certa tristeza em se tratando de tal processo de marcantilização das várias formas de expressão artística, é como o marketing se apossou do próprio ânimo revolucionário que é parte importantíssima da essência do “ser” jovem. Não rebela-se hoje em dia de outro modo, que não calçando um par de All Stars ou pintando os cabelos de rosa. Não rebela-se de outro modo que não através da identificação com uma artista ou persona multimídia.
E, é com esta mesma tristeza que costumo hoje conversar com alguns admiradores que estão direta ou indiretamente envolvidos com a produção artística em si e percebem que a experiência tende a escancarar a realidade.
Percebemos que - seja a música ou seja qualquer outra forma de expressão artística -
ao passar pelas engrenagens da mercantilização, o subproduto nada mais é do que mostra clara de que caminhamos para o extermínio de espécie, uma forma de genocídio mental, espiritual e criativo. Tornou-se comum perceber como o brilho da genialidade criativa acaba se perdendo dentro do trânsito da significação subjetiva de sua obra até o seu destinatário final, os consumidores de seu produto. E este é infelizmente o caso da Emilie Autumn..
Enquanto a (im)possibilidade do grande romance contemporâneo, teremos a multiplicação de impressões pessoais disfarçadas de arte, em grande parte, movidas por aquela sensação de luto e nostalgia de tempos mais propícios a produção cultural e artística genuína..