sábado, 8 de agosto de 2009

Violinos, Cello, Rock Pt. 23 - "Devil Doll - Dies Irae" ou "A Catarse da loucura através da Música"


"Devil Doll - Dies Irae" ou "A Catarse da loucura através da Música"

É fato que a grande maioria dos artistas, independente da forma que os mesmos escolheram para se expressar, se analisados sob uma ótica comportamental; não é raro encontrarmos indícios de que o produto de sua arte nada mais é do que um reflexo de seu transtorno.


A Expressão artística em minha opinião é a possibilidade da catarse da dita genialidade e loucura de uma mente criativa, direcionando tal energia á produção. O produto final de tal processo é o “escape”; a condensação e solidificação de tais pensamentos e idéias na forma do “objeto”; garantindo assim uma possibilidade de que a mente siga adiante quase intacta, pois esta, sublimou a energia conflitante.


Tendo isto em mente, é fácil perceber o quão frágeis são os conceitos populares sobre o que é de fato a loucura, a normalidade, desvios sociais ou comportamentais. Na verdade em maior ou menor grau;

todo – inclusive este que vos escreve – possuem algum traço na forma e no caráter que indica um determinado transtorno comportamental. A resposta está em “como” lidamos com este tal transtorno. Alguns gritam. Outros esmurram. Vários tentam a crença. E outros, criam. Mas todos, invariavelmente, julgam.


Gosto do texto de Bruno Gagliasso para a apresentação de uma peça sobre Van Gogh; de certo modo ele explica bem a mecânica da pressão social / existencial x produção artística na tentativa da manutenção da própria sanidade.


"Quem nunca se sentiu um pouco como Vincent? Não louco, mas enlouquecido. Não fracassado, mas incompreendido. Não sozinho, simplesmente inadequado. Como manter a lucidez e a determinação contra toda uma sociedade que não é capaz de te compreender? E pior, que te obriga a ser outra coisa?

Van Gogh nunca se rendeu.

Uma luta contra tudo e contra todos. A convicção mais forte do que qualquer outra cois

a. A sociedade tentou enlouquecê-lo, e em alguns momentos conseguiu. Mas se nas artes os fins justificam os meios, Vincent venceu.

Van Gogh está em todos que um dia ja se sentiram inadequados. Forçados pela sociedade a fazer algo. Forçados a se transformar em algo que não são. Fernando Pessoa disse que o coração, se pensasse, pararia. E Vincent, só coração, não parou nem por um segundo. Ou talvez só no último segundo – quando pensou.

Há muitos Vincents Van Goghs espalhados pelo mundo (...)”



Uma coisa curiosa e que gosto muito aqui no “Vinho & Cigarros”, é que – excetuando-se os grupos musicais que transitam no mainstream e transformaram sua produção em algo próximo a escala industrial, apresentando um trabalho já pasteurizado – trabalhamos artistas e temas que sustentam o que está escrito acima; e pode-se facilmente notar fortes traços do processo de catarse envolvido na atividade criativa. Melora Creager do Rasputina faz isso em suas composições. Human Drama ídem. Lisa Hannigan o faz de uma maneira incrivelmente doce e bela. Antony & The Johnsons em seu travestismo sonoro e visual alcança resultados lindos.




Assim como os admiráveis desconhecidos deste projeto Ítalo-Esloveno chamado “Devill Doll”.


Liderados pela misteriosa figura conhecida por “Mr. Doctor” – possui formação em Filosofia Artística, Artes Visuais e Criminologia bem como aparentemente em Música - praticam uma espécie de rock sinfônico que em muitos momentos chega a beirar o gótico; aonde colocam em prática todo este papo de catarse emocional descrito aí em cima. Em alguns momentos, é possível sentir de uma maneira brutalmente incômoda e desconcertante, toda a carga emocional impregnando o trabalho. Dói. Literalmente caminha pelo fio da navalha entre a insanidade e a genialidade.


De alguma forma, penso que caso não fosse este projeto há muito a mente do Mr. Doctor já teria se rompido - Se é que de fato não o fez.


Pouco se sabe a respeito deste projeto, pois ele é levado adiante no sentido extremo do termo “projeto pessoal”. A grande maioria do material que já foi gravado nunca foi lançado. E, apresentações ao vivo são tão raras quanto o material em si. O pouco que existe disponível são itens de colecionador; tendo sido lançados em tiragens baixíssimas em termos de mercado. E isso é algo curioso, pois, se analisados os componentes do projeto, é de se admirar que o mesmo seja levado a cabo desta forma. Vejamos:


Desde seu primeiro trabalho, as sessões orquestradas foram feitas em colaboração entre a banda e a Orquestra Sinfônica Eslovena completa. O caso é que o 1º violinista da orquestra, Sasha Olenjuk, foi o primeiro membro do Devil Doll.


Todos os envolvidos entendem que não produzem música vendável e, portanto a comercialização e a realização de shows, não é seu foco. Crêem que estão realizando algo que em termos artísticos possui um valor devastador; capaz de quebrar uma série de paradigmas não apenas em termos de conceito, mas também no senso de estética musical, poesia e na extrapolação da fusão do termo erudito, progressivo, rock sinfônico e dark rock. Isto poderia soar demasiadamente prepotente ou arrogante, mas após algumas audições dos álbuns desse pessoal, entende-se porquê afirmam isso.


As sessões de gravação do “Dies Irae” – disponível aqui - renderam algo em torno de 900 minutos de música. No entanto, o álbum foi disponibilizado em 3 tiragens limitadas. A 1ª, apenas 50 cópias, e as 2 últimas, 900 cópias cada; em um total de 1850 cópias apenas.


As influências eruditas estão fundidas com outras influências mais modernas no trabalho todo; e o resultado geral funciona de maneira simbiôntica. Não é difícil identificar elementos dos trabalhos de Shostakovitch, Bartok ou Bernard Herrmannn; bem como outras como por exemplo, do Cabaret Alemão. Pode remeter ao Dark Cabaret de hoje em dia; mas logo percebe-se que é apenas uma impressão: Acreditem, é algo muito mais doentio, perturbado e perverso. Está mais para uma versão deturpada, corrompida e deformada de “Alice no País das Maravilhas”, “Mágico de Oz” ou os antigos contos de fadas.


E, não pensem que pelo descrito acima, possam seguir uma linha do Black Metal. Não, não é diversão barata, são refinados demais para isso.

Se o instrumental total já é algo que impressiona; as vocalizações - por vezes bela, por vezes angustiada, mas definitivamente sempre permeadas de uma insanidade visivelmente clara de Mr. Doctor - são um show à parte. Cada palavra é dotada de uma cor específica, e em sua técnica vocal, ele praticamente transforma sua voz em um instrumento.


Costuma definir a música do Devil Doll como desagradável e incômoda, e prega que a expressão artística, como processo de expurgo psicológico, deve ser algo que machuque; e que a mesma, não tem que aparentar bela; muito pelo contrário. Tanto que, existem relatos que nas sessões de gravação e também nas raras ap

resentações em público; Doctor aparentava entrar em uma espécie de transe, como se os seus olhos estivessem literalmente virados para dentro; buscando inspiração dentro de sua mente, e ignorando todos os demais presentes.


Particularmente não acho o resultado de seu trabalho desagradável. Existem partes que posso considerar incômodas por serem desconcertantes. Da mesma maneira que existem partes em que ele consegue uma melodia dotada de um lirismo e beleza ímpar. É quase um contraste entre o que existe no céu e no inferno – lembrando que, o Inferno aos olhos de alguns pode ser igualmente belo.

Trabalho dificílimo de definir. Por outro lado, é um trabalho que merece uma carinhosa e cuidadosa audição. Alguns irão sentir repulsa. Outros, ficarão cativados. E outros ainda, definitivamente ficarão indignados. Mas é certeza que todos, de uma forma ou de outra, sentirão alguma coisa.



Link: Devil Doll - Dies Irae





















sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Seja bem vindo, Renato!!



Caros amigos e colegas,


Para quem sempre viu o nome de um tal “Renato” aí na equipe, mas nunca viu nenhum texto dele, aqui vai uma breve apresentação – sendo que o mesmo jura que daqui em diante irá postar com certa freqüência.


Formado em Biotecnologia pela UNESP, agora cursa Psicologia pela USP – estudioso o rapaz não?


Foi forçado a desencanar do investimento em um Cello tempos atrás, após tentar reverter o término de um relacionamento via celular e receber uma conta centenária, financeiramente dizendo. – Eis uma nova modalidade de frustração Cellística; está quase para um estelionato musico-artistico-emocional. hehehe


Mas o cara foi prático; optou pelo violino por uns tempos, mesmo assim mantendo aquela paixão pelo Cello, engavetada, até tempos melhores que estão por vir e descobriu que ligar para um celular no calor da paixão pode virar prejuízo. rs


Musicalmente está com o pé calcado no Rock. Me confessou que por questões de “porte físico”, optou por deixar os cabelos crescerem do que entrar em uma academia – o que cá entre nós, concordo plenamente, é bem menos trabalhoso... hehehe. Mas, como o resto da equipe, pegou gosto pelo erudito e tudo o mais que é bonito, bem feito e consegue despertar algum tipo de sentimento. Anda com algumas neuras quanto ao “em tese” – minimalismo – do Philip Glass, mas não dispensa nossos queridos Bach, Vivaldi, Beethoven e Sakamoto.


Deve ser coisa da formação em Biotecnologia do cidadão – e tenho sérias duvidas quanto a presença do mesmo nas aulas de Biotética; visto que de acordo com ele, come “(...) todos os dias a mesma porcaria: macarrão com molho pronto, 2 hamburguers feitos no microondas, 5 salsichas esquentadas e as vezes um ovo. Fica um lixo, mas fica pronto em menos de 10 minutos. É muito prático e tem todos os nutrientes que preciso. Essa é minha alimentação há uns 3 anos e não morri até agora”. Mais um indício sobre a questão da ausência ás aulas de Biotética, é sua mania de só beber água – Isso está me cheirando a discriminação quanto às coitadas das bactérias para a fermentação do vinho ou as leveduras da cerveja?

De qualquer modo isso pelo jeito irá mudar em breve, pois, percebeu que anda tomando prejuízos nas noitadas Open Bar. (Enquanto isso, o fígado e os rins agradecem... hehehe)


Adepto da sonoterapia; embora as leituras esteja quase todas focadas à Psicologia, de vez em quando ataca de Assis, Lispector, Drummond e tem alguma ligação com Augusto dos Anjos. Admite que não entende picas de Cinema, mas se identifica com os trabalhos de Ingmar Bergman. Bom, imagina se entendesse então? hehehe



Renato meu caro, puxe uma cadeira, tem água gelada na geladeira, deixe o vinho e a cerveja para mim e para a Cecília – estamos de olho nas garrafas hein? hehehe e seja muitíssimo bem vindo ao Vinho & Cigarros!!



quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Abomináveis públicos - "L'enfer c'est les autres", p.1



O genial pianista canadense Glenn Gould aposentou-se dos palcos bastante cedo, aos 31 anos. Isso foi em 1964, e seu motivo foi simplesmente... porque ele odiava o público, detestava os palcos, a obrigação e os anacronismos do mundo de concerto. Ele dizia que o público não entendia nada... então para que continuar aquela farsa? Gould continuou a gravar discos sublimes, mas manteve-se isolado, estudando sua música, criando para si e para as gravações. Virou um mito misantropo, que deixou provas inebriantes do poder da Beleza e da possibilidade de grandes altitudes no espírito humano, a começar pela famosa interpretação das Variações Goldberg, de 1955, que já garantiriam seu lugar no topo das listas de artistas mais admiráveis de todos os tempos.

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Mas a atitude de Gould foi assim tão drástica e incompreensível? Ele foi mesmo muito radical e até desrespeitoso, arrogante com relação àqueles que o amavam? Minha teoria aqui é de que ele foi apenas honesto, coerente e sensível à realidade das audiências de música clássica. Nada mais. E realmente o público o amava? Minha segunda teoria responde... não.

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O público de música clássica é, em sua considerável parte, simplesmente abominável.

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Idas frequentes a concertos, a prática de fazer parte destas plateias feita em muitos anos desde tenra idade e uma sensibilidade aguçada para comportamentos sociais deram-me a percepção, que geraram a inevitável e triste conclusão. Para que fique claro onde quero chegar, e detalhar a exposição para que a frase acima não seja tão radical e irresponsável quanto parece, vou enumerar minha posição acerca do público de música erudita (a parte massiva, mais comum, obviamente não me refiro a todas as pessoas, ao preço de expôr falso testemunho e gerar um paradoxo, incluindo a mim mesma):






  • As pessoas que frequentam concertos (sejam sinfônicos, operísticos, ou música de câmara) são em sua boa parte de extremo conservadorismo no que se refere a Estética, a valores morais, religiosos, políticos, e às suas próprias concepções mofadas de arte e entretenimento (e apesar de não explicitarem o fato, elas confundem arte e entretenimento, como o fazem as massas de classes menos abastadas, de outras formas).
  • A maioria teve uma educação rígida quanto ao que define status śocio-cultural, e possui ideias antiquadas no que se refere a Cultura de forma geral. Elas se sentem na obrigação de consumir arte para "pertencerem a uma elite" e serem consideradas pessoas cultas, como seus pais lhes ensinaram.
  • Boa parte simplesmente não entende nada do que ouve, e adora qualquer um que apareça na sua frente tocando uma de suas peças favoritas, de algum de seus compositores favoritos, filtro esse que restringe os artistas a um período bem específico da História da Música, uma mancha amarelada que se estende do fim do Barroco ao Romantismo Tardio do início do século XX. Elas têm cera nos ouvidos e não cansam de ouvir as mesmas peças, como se fossem cantigas de ninar em suas caixinhas de música carcomidas.
  • O público segue um ritual de etiquetas frígidas a respeito de uma missa da qual não entenderam uma palavra, não sabem porque estão ali, e se tornam agressivas e mesmo baixas e mal-educadas com quem ousar mudar o tom do rito sacrossanto eregido por suas ignorâncias e insensibilidades cristalizadas em anos.
Vamos aos "causos".
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i. Uma orquestra do Rio, a Petrobras Sinfônica, tem ou tinha até ano passado uma série de concertos que eram antecedidos por momentos de descontração, que chamavam "Happy Hour Miolo". Antes do concerto, o público chegava aproximadamente uma hora mais cedo e no hall de entrada da Sala Cecilia Meireles ouvia um grupo de jazz, ou algo parecido, e enquanto isso as pessoas eram servidas por garçons de pequenas doses de vinho Miolo. Ou seja, era mesmo um happy hour. Num destes concertos, onde se não me engano iriam tocar Schubert, fui com uma amiga, e ficamos a bebericar nosso vinho e a ouvir um grupo que tocava desde Piazzolla a Dave Brubeck. Quem conhece jazz, sabe que a música é feita pra tudo... num show de jazz, fala-se, ri-se, e também eventualmente se dança se a música instigar. É a música mais livre que existe. À nossa volta, estavam senhoras e senhores na maior parte idosos e vestidos com pompa excessiva. Alguns evitaram o vinho por que segundo foram adestrados, ops, ensinados, música clássica exige concentração, e o vinho, como outras drogas (ver o post "Tarja Preta" abaixo para mais), tira essa rigidez do cérebro de um ser considerado sério por seus pares. Boa parte destes senhores estavam sentados e não moviam um músculo e não proferiam uma sílaba, como se algum maestro tivesse dado algum sinal ao exército para a execução (!). Algumas pessoas, entretanto, incluindo minha amiga e eu, conversavam descontraidamente, enquanto o grupo começou a tocar entusiasmado o clássico de Dave Brubeck, "Take Five".
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Alguns mais jovens, incluindo eu, começamos a ensaiar movimentos de cabeça e corpo animados, como um convite à dança, sutil, mas irresistível... afinal, era "Take Five"! Quem sabe, sabe.

De repente, enquanto conversávamos baixo e a música tocava animada no happy hour, uma senhora vestida num manto vermelho e maquiada ao extremo levantou-se com olhar muito duro e agressivo e disse para nós duas: "Vocês vão fazer o favor de calar a boca? Quero ouvir a música. Se não se calarem, dêem o fora". Como se ela tivesse o poder de nos expulsar da Sala, como se outras pessoas não estivessem conversando, como se estivéssemos nos esgoelando, e finalmente, como se não fosse um happy hour, e não uma peça de câmara. Respondi, erguendo o copinho de vinho com certo ar simpático meio fanfarrão: "senhora, relaxe...é só um happy hour!". Ela nos ameaçou três vezes, e não tirava o olho de nós (que éramos duas das pessoas mais jovens que estavam no ambiente). Resolvemos, para que minha amiga não fizesse uma cena xingando a dita senhora, ir para o outro lado, e curtimos de lá o ótimo som dos músicos. Conclusões: ela estava de mau humor, ela não sabe que jazz nasceu nos puteiros e que é feito para enlouquecer, ela aprendeu que numa sala de concertos (mesmo no hall de entrada), os músicos tocam e o público se cala, e depois aplaude educadamente. Ela não sabe nada de música, de fato tampouco o que está fazendo ali. E ainda alimenta preconceitos: "duas jovens com roupas exibidas que nem essas duas, enchendo a cara e falando, dando risinhos, só podem ser estúpidas que não têm educação. Vou lhes dar uma lição". Mal sabe a tal senhora que provavelmente as duas estúpidas sabem mais sobre música do que ela jamais saberá em toda a sua monótona vida silenciosa.

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ii. Outra vez, esta mesma orquestra citada acima recebeu um dos mais aclamados pianistas do nosso tempo, Bruno Gelber, para a execução do dificílimo e emocionante Concerto para Piano no. 3, de Rachmaninoff, no velho (e cheirando a mofo) Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Programão para as velhinhas chacoalharem suas jóias e os senhores com seus ternos feitos sob medida. Muitas destas pessoas, contando também os jovens (entre eles, muitos casais de namorados, o rapaz querendo mostrar cultura para a mocinha burra ou vice-versa, mas nenhum dos dois com a menor noção do que possa significar este concerto para o mundo pianístico, ou da carreira de Gelber), pelo que se apreende das conversas, apenas sabe que é Rachmaninoff, que era romântico, e fez "peças lindas", isso basta. Muito bem.

O concerto foi sofrível. O pianista estava mal de saúde e em má forma, esforçou-se muito certamente, mas a orquestra não ajudou. Certamente que é uma má orquestra, vive correndo, ensaia pouco comparado ao esforço necessário, mal regida e administrada, mas que possui alguns bons músicos e trata de oferecer, ao contrário da Orquestra Sinfônica Brasileira (que é simplesmente cara demais para seu nível e a situação sócio-econômica de uma cidade como o Rio), peças de primeira a preços muito acessíveis, e projetos inovadores (como o Aquarius, música clássica na Praia de Copacabana). Mas é uma orquestra que se arrasta, e cujo regente, deitando-se confortavelmente na fama e em sua longa carreira, tem por seguro que é sempre a estrela da cena. O senhor Isaac Karabtchevsky decidiu que não precisa fazer muito esforço, ele já chegou ao topo e domina qualquer peça. Desrespeita grandemente muitos compositores com essa atitude. Nessa noite, foi o velho russo Rach. Atrasos constantes, um som apagado, erros nos metais, uma depressão que faria corar qualquer suicida. O final? Grandes e efusivos aplausos acompanhados de gritos de "bravo", "magnífico", "sublime", e mais uns dois ou três adjetivos do limitado repertório de elogios da audiência de música erudita. Eles simplesmente idolatram qualquer coisa que seja feita nos palcos. Onde estão as mentes alertas? E as pessoas que entendem e fazem música? Elas simplesmente não vão aos concertos. Nas palavras de algumas pessoas que conheço deste universo, simplesmente é cansativo, não vale a pena, e as pessoas são chatas e efusivas. O espetáculo perdeu a graça há muito tempo.

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iii. Conheci um violinista que iria apresentar-se em pouco tempo no Concerto Triplo, de Beethoven. Ele estava apavorado, pois nãos e sentia preparado para isso. A fim de consolá-lo, disse: "você já enfrentou outros concertos difíceis... para que se importar com o que as pessoas vão achar da sua performance? O público não sabe de nada". Ele concordou, mas estava preocupado com os poucos que iriam realmente ouvir compreendendo, alguns violinistas, era a opinião deles que contava. Lembrei-me da famosa frase da peça de J.P. Sartre, "Huis Clos", quando uma das personagens, que está com as outras pessoas num quarto abafado e sem espelhos, para toda a eternidade após suas mortes, diz: "l'enfer...l'enfer c'est les autres" (o inferno...o inferno são os outros). O inferno é o semelhante, é o ser humanos olhando para você, ou pensando sobre você, lhe julgando, ou lhe azucrinando com suas manias ridículas e suas palavras grosseiras... o inferno não pode ser experienciado na solidão. A solidão é a ausência de paraíso e de tormenta, é o nirvana. Glenn Gould que o diga. Recordo-me também do regente que aparece no famosos filme de F.Fellini, "Ensaio de Orquestra". Num momento de confissão, ele diz ao jornalista que grava sua entrevista palavras parecidas com estas: ao conduzir meus músicos, que estão em oblívio e cheios de desamor pelo que fazem, não olho para eles... suas faces patéticas, seus olhos que me odeiam... evito seus olhares. Este maestro está só com sua música. Sua orquestra é sua abominável plateia sem consciência. Durante o concerto, existem etiquetas. Estas todos conhecem e seguem à risca. Se algum pobre desavisado não conhecê-las, ou se esquecer num momento de empolgação, e por exemplo aplaudir entre dois movimentos da mesma peça, ouvirá uma saraivada de "shhhhhhhhh" pior do que o próprio som de seu pobre aplauso. Se você cochichar no ouvido de alguém que lhe acompanha, seus vizinhos de cadeira irão lhe censurar com olhares e mesmo lhe ofender. Em suma, os policiais do bom comportamento nas salas de concerto são impecáveis em presença de espírito (de porco) e ainda mais grosseiros do que os hábitos que querem aniquilar. Eles desejam aniquilar a própria emoção e o envolvimento com a arte que se lhes mostram.

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iv. Há dois anos, fui assistir a um concerto da Sinfônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bela porcaria, mas o repertório me interessava. Mas eu não sabia da parte ruim: era um concerto didático para crianças das escolas públicas. Quando cheguei na sala, fiquei aterrorizada, mas estava lá, então não custava nada sentar-me e pelo menos me divertir. Havia mais algumas pessoas desavisadas como eu, mas o que se espera numa situação destas? Uma sala lotada de aproximadamente 300 crianças e adolescentes sem a menor noção do que iria acontecer ali, sem acesso, sem nada. E rindo muito, se divertindo, o que tornava o ambiente bem agradável de fato. O concerto era para eles e ponto final, não para nós. Ninguém realmente apareceu para lhes instruir sobre as tais etiquetas, que os músicos tomam por certo, e nada sobre os compositores. Então de didático aquilo não teve nada. Mas enfim, não é meu objetivo falar sobre isso, mas sim contar sobre a experiência de estar numa plateia totalmente diferente da plateia usual de música clássica. Num solo de piccolo (peça de Vivaldi), olhei para o lado e vi um menininho de no máximo 7 anos com os olhos estupefatos, a boca aberta, uma maçã na mão...ele estava comendo a maçã quando foi tomado de assalto pela beleza daquele som e pela habilidade da musicista. Vi a emoção e o deslumbre estampado na inocência de um garoto humilde, enquanto uma senhora idosa do outro lado fazia caretas para os aplausos fora de hora das excitadas crianças.


Sinceramente, poucas vezes me diverti tanto numa sala de concertos quanto nesse dia, entre crianças e adolescentes "mal-educados".

Para as plateias usuais, aquilo é seu entretenimento apenas. A Nona Sinfonia de Mahler não vai mudar suas vidas, não vai lhes proporcionar uma experiência dionisíaca, não vai revolucionar seus estômagos e corações. Elas estão ali por obrigação, porque é culto ir ao concerto ao invés de ver TV. Elas não têm a menor emoção real e suas concepções estéticas são limitadas a ideias de beleza extremamente conservadoras. Todas, praticamente, nasceram no século XX, mas parecem desconhecer as vanguardas que mudaram as ideias de música, como atonalismo, por exemplo. Concertos de compositores como Dutilleux ou Arvo Pärt ficam vazios, e muitos dos próprios músicos não estão preparados para "tanta" modernidade. O violinista citado anteriormente me afirmou mesmo que odeia tocar até Villa-Lobos! Só lhe agrada século XIX para trás. Ele não percebe que toda a sua glória de violinista ambicioso, se houver, será experienciada e aplaudida por uma plateia constituída de pessoas sem emoção, sem tesão, sem ousadia, e mesmo sem musicalidade. Algumas precisam usar aparelhos de audição e usam suas melhores roupas da década de 50 para prestigiar seus concertos e assim pertencerem à casta "dos que sabem". Porque ele e mais alguns tantos fazem cara feia para as crianças das escolas públicas, que não têm respeito pelos anacronismos da música clássica, seus velhos spallas de casaca preta cumprimentando solistas e regentes com toda a reverência (depois de terem fumado seus baseados nos bastidores). Porque estas crianças talvez até preferissem Phillip Glass com suas séries repetitivas e seus sons maravilhosamente melancólicos à chatice grandiloquente de um Brahms (porque ele consegue ser chato inúmeras vezes... Nietzsche afirmou que Brahms fazia música para senhoras mal-amadas... não chego a tanto, mas ele exige um bocado de paciência e vinho às vezes). Porque elas talvez cantassem junto com um Hermeto Pascoal e sua espetacular inventividade e liberdade com instrumentos (porque para ele tudo dá som), sua humildade e generosidade (na última faixa do disco "Festa dos Deuses", ele grita: "a música universal é música de direito!"), e dormiriam, para escândalo das senhoras e seus colares, durante a execução de um monótono poema sinfônico de Liszt ou de uma ópera brega de um Donizetti. O pior é que eu já perdi vários concertos ótimos para estas pessoas anacrônicas, porque elas correm para garantir seus lugares e tomam rapidamente todos os ingressos... esgotam lugares para entrar em devaneios sonâmbulos diante de uma Maria João Pires.

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Se o concerto for gratuito então, prepare-se: as supostas educadas plateias irão lhe arrancar pelos cabelos se necessário, do seu lugar, para garantir uma boa visibilidade, em detrimento de outros. Minha irmã foi empurrada por uma senhora enfurecida durante uma execução do Requiem de Mozart na Igreja da Candelária, porque a menina estava "na sua frente". Culta, esta senhora, muito culta e gentil.
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Ao fim de uma apresentação, independente do quão boa ou ruim ela foi, pergunte a algum sujeito ou senhora ao seu lado o que acharam: "maravilhoso... ele é muito bom." E não sabem desenhar mais ideias a respeito. E muitos acham que estão sendo didáticos ou agradáveis com você, mais jovens, porque pressupõem que jovens só gostam de música ruim, então precisam incentivar seu bom gosto lhe parabenizando. Concedendo-lhe sua falsa complacência. Na verdade, mal sabem que a complacência foi minha, por aturar suas tosses durante toda a apresentação.

Esquecem-se de que música é revolução e poesia, é a arte mais visceral que pode haver ("os ouvidos não têm pálpebras", como escreveu lindamente o espetacular Pascal Quignard, escritor e músico francês). Deve-se ouvir música com o estômago. E qual é o objetivo dela? Música tem objetivo? Quem tem o poder de definir isto? Ela não é só cortina em torno do leito, para acalmar bestas e acalentar bebês. Ela também é chamado para o sexo, canto de guerra, lamento de escravo cativo, uivo do vento, espasmo de terror, agonia, arfar de moribundo, choro de bebê banhado em sangue recém-nascido, miado de gatos, grito de revolução, urro dos que não têm voz. Música é para os que perderam sua expressão. Remeto-vos novamente a Pascal Quignard e uma de suas mais belas obras, "Tous Les Matins du Monde", transformada em filme por Alan Corneau (1991), trilha sonora tocada por Jordi Savall e Le Concert des Nations. O mestre Mr. de Sainte-Colombe toca sua viola da gamba para o fantasma de sua mulher, após ter se isolado das brilhantes plateias e a corte do Rei Sol, fugindo de glórias, para viver música e natureza.

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Bem, eu não vou mais a concertos, a não ser que apareça alguma grande estrela por estas bandas, se conseguir ingresso, ou para observar os violoncelistas, aprender com eles, seus golpes de arco, suas técnicas de mão esquerda, sua interpretação, ou mesmo observar seus vícios. Mas não suporto mais os clichês, os comentários tolos, as orquestras ruins com músicos pedantes e deslumbrados com seu pequeno mundo, as etiquetas excessivas, as brigas por lugar, as performances sofríveis, a multidão competindo com suas bolsas e echarpes sendo de fato tão pouco respeitável quanto a multidão de cabeludos headbangers num show do Sepultura. Se eu quiser ouvir Messiaen ou a Sinfonia dos Mil (que ouvi sentada na areia de Copacabana há dois anos, ao lado do mar, uma experiência que teria sido mística se não fosse a excessiva segurança e mau gosto do regente Karabtchevsky e a grosseria de pessoas que não deveriam estar ali- um homem disse à sua esposa atrás de mim: mas que chatice... para que essa harpinha agora? como se ele entendesse tudo de arranjo e harmonia, dando pitaco no Mahler... aí, Mahler, corrige isso, hein?), vou ouvir no meu quarto, com muito vinho e os melhores intérpretes. E sem plateia ao meu redor para gritar "bravo" no final, com seu ruído de mau gosto, seus papéis de bala e seus comentários complacentes e risíveis. L'enfer, c'est les autres.

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quarta-feira, 29 de julho de 2009

AVISO! Contratação de serviços de IPLocator.



Caros colegas e amigos,



Devido a abusos por parte de alguns usuários bem como ataques pessoais ao nossos autores, o "Vinho & Cigarros" foi registrado no serviço global de localização de I.P.'s. bem como das informações relativas ao seu provedor de acesso e do usuário.


Caso insistam com seus posts de caráter ofensivo, os mesmos serão deletados daqui para frente sem nenhum retorno por nenhum dos nossos autores, independente do assunto original. Todos os dados pessoais gerados pelo seviço I.P.Locator serão encaminhados para seu servidor de acesso para monitoração bem como também para quaisquer órgãos ou instituições competentes dependendo do caso.


Em termos práticos nada muda no Vinho & Cigarros, este continua sendo um blog de livre expressão e artes em geral.


No entanto a partir de agora todos os IP's de usuários e frequentadores deste blog estão sendo salvos em backup's.


Como quase tudo neste país, infelizmente pela atitude de poucos, todos são obrigados a abrir um pouco mão de sua liberdade em prol de um pouco de educação, respeito e organização.


Att,

Equipe Vinho & Cigarros


sexta-feira, 24 de julho de 2009

Post "tarja preta" - Embalando em um sono químico...



Não seja estupidamente hipócritas. Não quanto aos teus atos, ideais ou desejos. Mas, quanto as tuas idéias e pensamentos quando estiver em processo de julgamento e formação de opinião acerca do caráter de uma pessoa. Lembre-se que muito do que julga ser uma verdade, assim o é não por uma lógica matemática ou fato=consequência, mas sim pelo que o senso social geral social diz que assim o é. Baseado em tal senso, não existe o questionamento, existe apenas a aceitação sem a necessidade da prova. E, mesmo quando há a necessidade da prova, lembrem-se que uma verdade pode ser mutável em se tratando de contextualidade.


Vivemos uma época desgraçada. Em um sentido diametralmente oposto, vivemos uma época deliciosamente rica para os que gostam de explorar os sentidos.


Sentados em uma mesa de bar, homenageamos vários escritores de quilate, seja porque velhos, seja porque mortos ou seja porque loucos. Mas loucos são os que vivem de cara limpa uma realidade tão áspera que é capaz de mudar a qualidade do frango assado, arroz e vinho, apenas pelo preço que é cobrado o mesmo.


No meu terceiro decanato percebo que os vinte e cinco anos dedicados ao estudo; ideologias, senso crítico e a busca pelo entendimento das relações interpessoais nada mais fizeram do que revelar a faceta monstruosa que o ser humano orgulhosamente insiste em bradar em alto e bom som como o ápice da evolução humana. Até assuntos que deveriam permanecer imaculados como quando alguém clama o amor, estão sujeitos a passar pelos grilhões da imunda máquina marqueteira que se denomina sociedade mercantil. - "e fazemos isso para melhor atendê-los" - insistem eles. Mas, quem de fato sabe hoje o que é o amor?


A fisiologia e neuroquímica detêm tais respostas. Os acadêmicos teorizam a respeito. E as farmacêuticas ditam o que devemos e o que não consumir. E, de repente Camões, em sua métrica perfeita versando o amor, se tornou depressivo. Nerval, louco. Novalis, Ópiomânoco. E Baudelaire? Bem, leiam seu "O poema do haxixe" - mas não fumem haxixe, dizem "eles".


A mídia nos bombardeia constantemente a respeito da conexão "violência/tráfico de drogas x usuários" mas apenas para variar um pouco preferem lidar com a questão tratando o assunto sob uma ótica de interpretação marginal; uma vez mais preferindo a guerra causada pela imposição, do que a livre discussão. Ninguem repara. E se reparar e discutir isto abertamente, dirão que faz mal ao fazê-lo, afinal, é preferivel abaixar a cabeça á discutir as ordens "deles".


Sempre com um chicote, sempre com uma raiva servil, creio eu que nos querem testar até o limite; ao tentar nos fazer crer que tudo é artigo vendável, inclusive a sensação do desgosto amoroso limítrofe. - Afinal dizem eles, o "Prozac" está a venda em qualquer farmácia...


Engana-se quem pensa que faço apologia a quaisquer espécie de drogas - muito embora não negue o uso de algumas substâncias "suspeitas" (palavras "deles".)


Neste contexto, gosto de pensar nas palavras de Jules Michelet em seu sóbrio ensaio entiulado "A Feiticeira":


- "(...)Dessa enormidade, duas coisas derivam, em justiça e em lógica. O juiz está sempre seguro do seu caso; aquele que lhe apresentam é sempre culpado, e se se defender, ainda mais. justiça não tem que se cansar, nem quebrar a cabeça para distinguir o verdadeiro do falso. No conjunto, parte-se de um preconceito. O lógico, o escolástico, deve apenas analisar a alma e os matizes que ela passa, da sua complexidade, das suas opposições interiores e de seus combates. Não precisa, como nós, explicar como essa alma, de degrau em degrau, pode tornar-se viciosa. Essas sutilezas, se ele pudesse compreendê-las, oh! Como riria delas e abanaria a cabeça. E com que graça abanaria então as soberbas orelhas com o que seu crânio vazio está adornado"


Subjetivamente relato apenas a utilização de substâncias inebriantes por quase todas as formas de vida neste mundo: seja o homem que decide após o expediente; em sua casa, tirar os sapatos, afrouxar a gravata, enxer uma taça de vinho e enrolar seu fumo em paz sem ninguem enxendo o saco; ou seja aquele macaco na Africa que come os frutos fermentados que jazem no chão, aos pés de uma espécie de coqueiro e ficam chapados por algumas horas.


Mas antes que venham a porcaria dos críticos comportamentais de plantão me enxer a paciência, e visto que em tese este é um blog livre mas com um pé calcado na música também; saibam vocês que até mesmo na dita "elite musical" - ??? - que é o erudito, é longa a lista de usuários de betabloqueadores; substâncias estas que atenuam os efeitos causados pela adrenalina pré apresentação; como o nervosismo em excesso e

ansiedade.


...ou vocês sinceramente acreditavam que isto era uma exclusividade dos músicos de Jazz ou Rock?


Quanto a mim? Sexta feira a noite, chuva e sem carro.... Acho que experimentarei um vinho barato, viajarei em uma boa música e depois me deixarei levar por um belo sono químico...




P.S. -> Ok's Ok's Ok's...
Admito, estou abusando das palavras "Estupidos" (e derivados) , "Hipócritas". Cretinos, Imbecís (e derivados) e outras... Juro que tentarei pegar leve nos próximos post's...





terça-feira, 21 de julho de 2009

Maestros, Obras-Primas & Loucura, Andre Navarra e mais vinho...



Após a cretiníssima experiência nas mãos de um grupo de auto denominados “headhunters” ontem, resolvi largar mão hoje e exercer a minha função de vagabundo sênior.


Mas, convenhamos, o bacana é ser um vagabundo com classe, não um qualquer.


Então, lá pelas 9:00 da matina eu tive a cara de pau de abrir um vinho Chileno. Com as mãos passeando pela estante, resolvi dar mais uma chance ao livro “Maestros, Obras-Primas & Loucura - A Vida Secreta e a Morte Vergonhosa da Indústria da Música Clássica”, de Norman Lebrecht. Comprei-o ano passado enquanto dando minhas voltas sem rumo definido, que invariavelmente me jogam dentro das livrarias de São Paulo; mas confesso a vocês que após duas ou três tentativas, não deu a química e na época, deixei de lado. Agora finalmente venci a introdução e o primeiro capitulo, e estou com uma impressão bem melhor então acho que agora vai.



Lebrecht mostra como um grupo de engenheiros, empresários e regentes popularizou

um gênero musical até então restrito a círculos privilegiados, ao mesmo tempo em que gerou uma montanha de bobagens, excessos e egocentrismos.

Ele mostra também o vergonhoso declínio dessa indústria e, sempre disposto a polemizar através da ironia, faz uma seleção crítica das cem gravações clássicas mais importantes da história, e das vinte mais lamentáveis. Através de uma rápida folheada pelo livro, me deparei com pontos de vistas, casos e análises que acredito irão acrescentar e muito, para aqueles que querem entender um pouco melhor a música hoje em dia. Muito bom.



Como mesmo os vagabundos precisam almoçar e vinho em excesso quando em jejum não é lá a coisa mais recomendável do mundo, lá pelas tantas deixo o livro de lado e vou cuidar do nosso alimento de cada dia; afinal já tinha programado a tarde para ficar debruçado nos métodos, partituras e pesquisas, tendo por companhia a outra metade da garrafa. Como adoro isso... Crise? Ora, aproveite para viverem um pouco mais meus caros... (Outra coisa para NÃO ser citado em ocasiões como a do post anterior, enfim.)


Pesquisando a respeito de mais técnicas de arco já que a minha basicamente é experimental demais - ou, praticamente inexistente, como queiram - voltei meus olhos para o Cellista Francês e professor, André-Nicolas Navarra. Tudo a ver com o início do texto, este cara esteve presente por grande parte do período que o livro abrange, apenas constatando.


Nascido em 1911, desde pequeno ele foi preparado para ingressar no mundo da música – seu pai, de acordo com relatos era um excelente contra-baixista – e antes de iniciar os estudos efetivamente em algum instrumento, aprendeu a respeito de escalas, métrica harmonia e solfejos. Aos 7 anos de idade iniciou os estudos no Cello, e 2 anos depois foi aceito no Conservatório de Toulouse. Se graduou quando tinha 13 anos com honra ao mérito, ingressando logo na seqüência, no conservatório de Paris; aonde graduou-se novamente com honra ao mérito, aos 15 anos de idade.


Após o Conservatório de Paris, Navarra parou completamente com as aulas e não buscou mais aprimorar sua técnica – algo bastante incomum entre os Cellistas Solo. Ao invés disso, ele iniciou um trabalho pessoal para o desenvolvimento de um curso e métodos próprios, tornando-se assim por um período, autodidata no instrumento. Este trabalho incluiu a transcrição de enumeras técnicas de violino para o Cello, incluindo materiais de Carl Flesch e Otakar Ševčík. Tendo permanecido em Paris durante este período, ele teve a oportunidade pela observar musicistas como o Cellista Emanuel Feuermann, o pianista Alfred Cortot e o violinista Jacques Thibaud, além de se aproximar de alguns compositores de renome na época, como Ibert, Honegger e Florent Schmitt. Tempos depois, foi adotado como pupilo por certo período, por Pablo Casals.


Em 1929, aos 18 anos, Navarra ingressou ao Krettly Quartet, e permaneceu nesta parceria com eles por 7 anos, e em 1931 faz seu “debut” executando o concerto para Cello em D menor de Lalo, junto a Paris Colonne Orchestra. Em 1933, se torna o Spalla da Paris Opéra Orchestra, paralelamente ás suas colaborações como solista em inúmeras outras orquestras Européias.


Outra coisa inusitada quanto a este senhor, era o fato de Navarra praticar natação e ter uma queda acentuada por boxe, praticando-o por anos a fio. Dizia que isto era ideal para um Cellista e tais atividades, ajudavam em seu domínio do instrumento. Aos poucos, ele consolidava sua carreira como músico profissional, ganhando um empurrão extra em 1937, ao ganhar o primeiro prêmio e honrarias da Competição Internacional de Vienna.


No entanto, sua carreira foi abruptamente interrompida em 1939, quando estourou a 2ª Guerra Mundial, período este em que abandonou seu Cello e ingressou na Infantaria Francesa.


Após a Guerra, ele retoma sua carreira de musicista, e aceita o cargo de professor no Conservatório de Paris, substituindo Fournier; paralelamente as grandes turnês nos EUA, Europa, Ásia e na União Soviética.

Sob a condução de Barbirolli, gravou uma bem sucedida versão do concerto para Cello Solo de Elgar, o mesmo concerto que deu fama á saudosa Jacqueline Du Pré.


No entanto, Navarra tem o grande mérito como um dos melhores professores de Cello daquele período pela transcrição de várias técnicas do violino para o Cello. Paralelamente as aulas que ministrava no Conservatório de Paris, era freqüentemente chamado para dar aulas em outros institutos, como a Accademia Musicale Chigiana, em Siena, na Hochschule für Musik, em Detmold, em Saint-Jean-de-Luz bem como em Londres e Vienna.


Veio a falecer na, na Itália, em 1988.


Dentre seus trabalhos de cunho mais acadêmico, talvez ele tenha sido um dos precursores das vídeos-aula, tendo desenvolvido um material muito um material bastante bom em que explica suas técnicas de arco. Bom... Quanto a isso...

...vou explicar, para quê? Vejam o vídeo com sua execução de Moses Fantasy, de Paganini... Os links para as vídeo-aulas estão logo na seqüência...Em Alemão e Francês... Por ora, após uma pausa, acendo um cigarro e entorno o resto da garrafa em uma taça antes de retornar ao meu Cello... Divirtam-se!!



André Navarra - Paganini Moses Fantasy



















Andre Navarra Vídeo Links:


Andre Navarra explains his bow technique - part 01
Andre Navarra explains his bow technique - part 02
Andre Navarra explains his bow technique - part 03
Andre Navarra explains his bow technique - part 04
Andre Navarra - The left hand
Andre Navarra - Shifting