Bright star, would I were stedfast as thou art-- Not in lone splendour hung aloft the night And watching, with eternal lids apart, Like nature's patient, sleepless Eremite, The moving waters at their priestlike task Of pure ablution round earth's human shores, Or gazing on the new soft-fallen mask Of snow upon the mountains and the moors-- No--yet still stedfast, still unchangeable, Pillow'd upon my fair love's ripening breast, To feel for ever its soft fall and swell, Awake for ever in a sweet unrest, Still, still to hear her tender-taken breath, And so live ever--or else swoon to death.
John Keats
Eis o retorno triunfal de Jane Campion, a diretora e roteirista que quase foi a primeira mulher a ganhar o Oscar de melhor direção pelo perfeito "The Piano" nos anos 90 (muito mais merecido do que o de Ms. Bigelow por "Guerra ao Terror", um filme que esqueceremos em alguns meses). Campion estava sumida. Fez alguns curtas e filmes não muito bem recebidos como o duvidoso mas interessante "Em Carne Viva" com Meg Ryan, e agora ressurge como a talentosa cineasta que amamos, com sua sensibilidade grandiosa e universal mas ao mesmo tempo profundamente feminina. Digo isto porque creio que Jane Campion seja uma das poucas artistas que produzam obras especiais, e uma de suas características é que apesar de universalmente apreciável e sensível de forma ampla e humana, pode-se dizer que um homem não faria um filme como os dela. Pode fazer pior ou melhor, mas não exatamente como ela faz. A visão de Campion é feminina não somente por ela ser mulher, mas por ela derramar uma visão feminina de uma certa forma que mesmo outras mulheres não conseguem. Ela deixa sua marca sutilmente, a abordagem da poesia no filme é feminina, é de uma mulher inteligente, e cuja idade ou maturidade não é revelada, mas talvez este seja o eterno feminino que escritores machistas de todos os tempos tentaram defiir de forma pejorativa, e nunca realmente entenderam do que se tratava, como ocorre a um dos personagens de "Bright Star", a nova obra de Ms. Campion.
O filme de Jane Campion, há pouco tempo nos cinemas brasileiros e certamente sem muita promessa de arrasar os quarteiroes arrasados por "Eclipse" e sua horda adolescente, trata do Amor na sua forma mais sublime, pura, do grande amor, e sua forma de anjo não é menos avassaladora, porque promete a Eternidade. Conta o fim da curta vida do genial poeta inglês John Keats, que mesmo tendo desaparecido nas sombras deste mundo aos 25 anos, tornou-se uma das mais brilhantes estrelas do céu do Romantismo na literatura britânica e de todos os tempos. Tudo nele é grande e belo, mas suave e terno. O tempo passa lentamente, apesar da pouca idade dos protagonistas. Eles são os eternos amantes. Não há sexo nem qualquer insinuação desta possibilidade. Afinal, estamos no início do século XIX, e naquele tempo amores eram proibidos por menos, como o fato do amante ser um pobre poeta sem renda ou meios de sustentar esposa e filhos. As pessoas morriam de tuberculose. Levantar a saia era uma devassidão sem nome. Por isso as paixões tinham chance de serem estes sonhos de verão que levavam poetas à loucura, donzelas ao suicídio, e as promessas era eternas.
As cenas trazem o cuidado particular com a luz e a delicadeza exigida pela história (real), o que se transpõe em momentos de passeios tranquilos em campos de lavanda, repousos sobre copas de árvores centenárias, caças a borboletas, crianças que se assemelham a anjos, e uma seriedade que somente poetas conhecem na imortalidade de suas solidões ao mesmo tempo efẽmeras. Tudo o que é belo e verdadeiro é efêmero, é passageiro, vai morrer, é o que ensina este filme. A eternidade está contida numa semente de trigo. O verão se transforma em triste gelo, a xistência torna-se uma lembrança na madrugada. O enorme prazer se transforma em lágrimas. Mas quem deseja uma passagem segura e amarelada por este mundo? Melhor uma morte aos 25 anos carregando-se na barca de Caronte a memória e o desejo do grande amor, do que um envelhecimento vazio e auto-contido.
A música é de particular importância, mesmo que menos do que foi em "O Piano", quando a trilha foi criada pelo grande mestre minimalista Michael Nyman. Os momentos mais delicados sofrem pequenas intervenções de um cravo, ou de cordas hesitantes. Mas o aparecimento da versão em "orquestra humana" daSerenata No 10 em Si Bemol Maior K 361 de Mozart é de vital impacto. Somente Mozart possui tamanha inocência e grandeza pra intervir numa história onde tudo possui, como as frutas no outono, um tempo correto para amadurecer, onde o tempo passa tão devagar e delicadamente com a intensidade de uma tempestade, quando parece que nunca veremos o sol, ou quando o verão está em seu auge, e pensamos que nunca mais saberemos de novo o que é o deleite de dormir numa cama quente num noite gelada. Como tão bem é citado na película,
I almost wish we were butterflies and liv'd but three summer days--three such days with you I could fill with more delight than fifty common years could ever contain.
- John Keats, Letter to Fanny Brawne, July 1, 1819 Destaque seja dado, entre todas as cenas de mais absoluta beleza, para Fanny e seus irmãos com dezenas de borboletas dentro do quarto. É completamente inesquecível.
O amor perfeito existe, mas está apenas disponível para quem tem o coração tão livre como um bebê, e está disposto(a) a perdê-lo nas pedras, ventos e escuridão do tempo que galopa. O personagem machista que citei no início é o melhor amigo de Keats, que deseja a todo momento condenar as mulheres e sua suposta futilidade. Aqui entro com uma comparação. Seu amigo é a personificação do excessivo racional que luta contra seus próprios desejos e por não ter maturidade nem grandeza, acaba sujando-se ainda mais na lama, condena-se por reprimir sua alma de forma tão mesquinha e infantil. São os que frequentemente vivem do status e do intelecto, de alguma forma de poder, e se sentem vivos e superiores porque são elogiados por seus pares acadêmicos. Mas são incapazes de criar grande arte porque não sabem viver. Nunca poderiam receber o beijo de Psiqué.
É preciso estar disponível à dor e ao retorno à infância para ter acesso ao Espírito. Esta é a uma das mais frutíferas ideias herdadas do Romantismo.
A propósito, é um filme muito triste também, claro. Você já vai entrando no cinema sabendo que John Keats morreu aos 25 anos, longe de sua amada, e o grande poema de sua vida, a paixão imensa que ele vivia, não pôde se concretizar completamente. Só aviso porque depois ninguém me acusará de ter recomendado um filme que deixou vocês chorando durante dias. Chora-se não somente pela tristeza e beleza daquela história, mas pela vida. Pela efemeridade, pela tragédia de haver pureza num mundo grotesco e por ela estar condenada, como os bebês estão condenados à morte desde que nascem, pela solidão dos que sonham, pelo suave respirar dos poetas em meio à turba que grita em jogos de futebol, entre carros, entre fumaça, sujeira e noites de neon regadas a álcool.
Outro detalhe é a beleza física dos protagonistas, específica, pensada para eternizar mitos. Campion escolheu uma atriz de beleza ingênua (pelo menos sua caracterização, vestidos, cor do cabelo, etc, tudo foi calculado para a exata composição de Fanny Brawne, a estrela brilhante de um grande poeta), e corajosamente, fora dos padrões de beleza de Hollywood: não é muito magra. Isso foi extremamente agradável de se ver, já que naquele tempo as mulheres não eram forçadas a serem esqueléticas ou malhadas. Não existia isso. Abbie Cornish está deslumbrante. E o sempre charmoso "com cara de rebelde sem saber, alienado e poético" (o que já aparecia no fantástico e polêmico "Perfume - A História de um Assassino") Ben Whishaw... por ele eu me apaixonaria à primeira vista. É sabendo destes efeitos que a atmosfera onírica é preparada pelos realizadores desta maravilha de cinema-poesia. Música, imagens, poemas. Um convite à Eternidade. Boa viagem a todos.
Já faz um tempinho que figura entre os autores do Vinho & Cigarros a Nathalia, esta pequena comedora consumidora insaciável de Baurus & afins. Curiosamente, é valido mencionar que a mesma de fato reside na cidade que leva o mesmo nome, e existe toda uma conjunção cósmica e inefável que explica isso, mas deixarei o lado oculto das coisas de lado no momento. (Afinal, se mencionar qualquer coisa cósmica envolvendo Bauru, teremos que automaticamente tentar entender porquê após a subida do Sr. Marcos Pontes ao espaço – o primeiro astronauta “Bauruense” (??) Brasileiro, sumiu um planeta: Plutão)
Me intriga que, a cada dia que passa nos meses que converso com ela, a cada dia tenho a séria impressão que a mesma tem várias características de transtornos de personalidades bipolares, bem como algumas pitadas de atitudes bordeline; o que geralmente bastante me agrada e me dá dores de cabeça. (Céus, porquê raios só me meto com gente maluca? hahaha)
Masss.. Como todos os outros autores do Vinho & Cigarros, a dita cuja é possuidora de um senso estético-musical apuradíssimo, e em vários sentidos, dá um banho em se tratando de erudito em cima deste que vos escreve – Não que eu seja realmente um digno conhecedor, antes, tenho os meus momentos. há há
Acredito eu que embora a grande maioria do que escrevemos por aqui seja muitas vezes voltado ao nosso querido Cello, esta representante da turma dos instrumentos mais graves – sim, ela está no conservatório de Tatuí aonde tenta aprimorar sua relação com seu Contrabaixo – é uma ótima aquisição para a equipe do Vinho & Cigarros. No entanto, ela também tem uma mente bastante aberta, e musicalmente dizendo se assemelha a mim em vários aspectos; principalmente em se tratando de gostos relacionados a bandas Européias mais underground, sejam estas que exploram uma pegada mais industrial ou que exploram um crossover do erudito com o rock. De tempos em tempos costumamos trocar figurinhas bem como algumas farpas e pentelhações. Nada muito grave. rs
Apreciadora de um bom vinho, definitivamente com o pé calcado em artes, prefere passar longe de qualquer coisa que produza fumacinhas fora incensos. Diz que um dia se muda para a Alemanha. Diz que um dia entra na OSESP. Diz que um dia manda a maioria das pessoas ao seu redor – incluindo eu – a merda. Diz que um dia atropelará todo mundo em um tanque de guerra moderníssimo. E o duro? É que eu sei que a dita cuja consegue... rs
Não se enganem, no fundo no fundo, apesar desse mal humor todo, é uma graça de pessoa...
Em tempo:
O Bauru original foi inventado nos anos 30 pelo radialista Casemiro Pinto Neto, no balcão da lanchonete paulistana Ponto Chic (Praça Oswaldo Cruz, 26 – Paraíso), contendo os seguintes ingredientes:
Camadas generosas de rosbife caseiro, rodelas de tomate, pepino cortado bem fininho, mistura de quatro tipos de queijos derretidos no pão francês sem miolo.
Seja muitíssimo bem vinda Nath’s, puxe uma cadeira, sirva-se de vinho... Tentarei manter meu cigarro longe de você... ; )
Existe toda uma infinidade de pequenas pérolas do mundo musical que costumam transitar elo meu Ipod todas a vezes que coloco-o para sincronizar com meu PC.
Pequenos pois expressivamente, costumam localizar-se muito aquém de musicistas de maior talento em se tratando de musicalidade e concepção de obra. Pérolas pois ainda assim enquadram-se em um patamar de uma genialidade latente e conseguem trabalhar toda uma aura ao seu redor, criando, cativando e posteriormente alimentando uma hoste de fieis séqüitos; ávido publico consumidor com uma linha trabalho inusitada, totalmente fora do convencionalismo.
A tempos que penso no esboço uma resenha destas e apenas agora sinto-me confortável o suficiente para fazê-lo - Uma breve porém lúcida correlação entre artistas, artes, discurso e marketing visando a venda e a confusão e frenesi que tal causa na cabeça dos pequenos fãs mais extremistas.
Julgo Emilie Autumn um ótimo exemplo de uma pequena centena de musicistas que adotam e fazem uso de um discurso que objetiva o puro entretenimento musico-teatral, aliado ao livre prazer de construir, deturpar e desconstruir ideias e imagens provenientes de uma mitologia comum que quase nunca correspondem à realidade objetiva.
Uma das premissas em que se apóia toda a obra da musicista em questão – novamente, chamo a atenção para o fato de tratar-se de apenas um exemplo entre vários – é a forte influência de sua vida privada bem como igualmente forte inspiração em uma 'suposta condição feminina' durante a era Vitoriana Britânica como bases de sustentação e coesão para o seu trabalho. Ao meu ver, excetuando-se a função puramente recreativa, de resto basicamente visualizamos um enorme construto marketeiro visivelmente direcionado a um pré determinado publico consumidor desde a sua concepção até o fim; isto é, a comercialização do produto-arte.
Dando os nomes aos bois: Governada pela Rainha Vitória entre 1837 e 1901, a concepção de “Era Vitoriana” é restrita a um período histórico interno do império Britânico. Marcada por uma certa paz aparente, desenvolvimento industrial calcado na força motriz baseada no vapor, constantes novas invenções, observou-se a expansão do Império, bem como uma expansão interna de uma parcela significativa da classe média. A estes fatores - principalmente o acesso a educação – comumente dá-se a Era Vitoriana uma roupagem de modelo de sociedade bastante liberal dentro de seus usos e costumes.
No entanto, em sentido oposto ao descrito acima, sabe-se que outras características foram bastante marcantes neste período histórico: Uma sociedade marcada pela austeridade, formalidades excessivas e frivolidade exacerbada. Nos recônditos da cultura Vitoriana, também tais usos e costumes possuíam seu caráter pérfido; o enorme desprezo ao vício em todas as suas manifestações bem como o sexo. De fato, este provavelmente era o maior tabu a ser considerado nesta época, o lugar comum a ser assumido e desempenhado socialmente pela mulher; dona de casa e submissão à hierarquia sexual. Isto é, embora o caráter liberal de nossa sociedade atual, os avanços na questão submissão e hierarquia sexual ainda são temas controversos em várias partes do mundo.
Esta é a concepção romantizada e é dela que costumam derivar vários gêneros contemporâneos de cultura de nicho - ou cultura underground - tanto musicais quanto em outras formas de expressão comumente adotado pelos jovens: Citando um exemplo, temos o movimento Steampunk; que engloba vários dos elementos citados acima, tanto na questão estética bem como visão de mundo.
O fato ser uma visão romantizada das coisas é relativamente óbvio, e justamente por tal obviedade tende a passar totalmente despercebido as vistas de quem costuma se identificar com períodos históricos há muito encerrados: Citando Neil Gaiman – embora romancista, possui umas sacadas geniais em seus trabalhos – '(…) o primeiro erro é a falta de merda. Ora, é isso que as pessoas costumam esquecer sobre o passado. Toda a merda. Merda de animais. Merda de gente. Merda de vaca. Merda de cavalos. Era merda até as canelas. (…) piolhos, lêndeas. Câncer apodrecendo os rostos. Qual foi a ultima vez em que viu alguém com um tumor gigantesco no meio da cara? Hã? Exato'
Extremamente articulada e possuidora de uma inteligência impar bem como senso artístico bastante definidos, não é tarefa fácil analisar Emilie Autumn de maneira isenta, objetiva, e revela-se ser tarefa bastante complicada a tentativa de definir quais os limites de seu discurso que são ficcionais e quais os que são de fato, reais. De fato é comum em dias de hoje a tendência de certos artistas em seus diversos campos de atuação a tendência a elevar sua vida pessoal para o 'status' arte. Assim, novas e interessantíssimas duvidas surgem durante o processo de análise: 'o que é arte?' ou ainda; 'qual os limites da produção artísticas e vida privada?' e além; 'qual a função social das artes' nos dias de hoje?
A vida privada do artista enquanto motor de impulsão e alimento para a produção artística ou a utilização da mesma como lente interpretativa para a realidade e após, transformada em arte não só é aceitável bem como desejável. De fato, existe aí uma das essências do 'ser artístico'.
Mas existe a subjetividade, a classe, a elegância. E justamente estes quesitos aparentemente são deixados de lado por tais artistas. A capacidade de trabalhar as entrelinhas, o “instigar” a novas percepções que não são claras em um primeiro momento, apenas após uma reflexão da obra em si e não da imagem e imaginário que rondam o artista. Eis aí uma das respostas às perguntas propostas acima: Uma das funções da arte enquanto veículo informacional é a sua vocação e inclinação naturais a isenção e relativa independência do aparato de marketing; que a saber, é um dos pilares de sustentação de todo um sistema de estruturação social em um sentido amplo do termo. É a capacidade de afrontar o óbvio. De levantar questões. De desafiar o status-quo. E, naturalmente, rebelar-se contra um sistema de crenças e valores. A arte se alimenta do desarranjo do mundo através das lentes interpretativas de quem a produz. A arte em seu estado bruto, tende a barrar o marketing.
Comportamentalmente, ora, ninguém é 'cool' por escutar este ou aquele musicista. A vida cotidiana e dramas pessoais de ninguém é 'cool'. E se Emilie Autumn passou por uns tempos em uma instituição psiquiátrica tampouco isto pode ser considerado mérito de qualquer espécie. O que reforça minha tese de que a produção inteira da Emilie Autumn de fato é apenas mais um produto essencialmente destinado a um público caracterizado por comportamentos e identificações socialmente desviantes, tendo tornado-se mero assessório agregado a para fins de identificação coletiva. Ora, Alice Cooper assim o fazia na década de 70 e até hoje o faz com o mesmo sucesso, e de maneira muito mais sincera, convincente e em vários aspectos; mais fluida e orgânica do que Emilie Autumn.
A despeito da aparente sensação de estarem sempre a margem de um sistema, é óbvio que - embora em um nível não mainstream - tal público ainda assim se encontra perfeitamente dentro dos ditames tradicionais de valores pregados pela mesma industria que diz o que deve almoçar, vestir, assistir e ainda se preocupa com o bom funcionamento de seu intestino. Activia que o diga!
Não é nenhum segredo que este é outro artifício comum dentro do marketing: A manipulação da eterna roda da interrogação da significação social bem como sensação de pertencimento a determinado grupo social exclusivo em algo. E, este é um outro ponto interessantíssimo. Podemos dizer com certeza que Emilie Autum é uma daquelas artistas que transitam em um meio multimídia com conforto e maestria, alimentando seus fãs com uma – relativa – produção musical calcada na teatralidade, notas biográficas em forma de textos, poesias - embora existam sérias dúvidas quanto à qualidade literária das mesmas - e sua própria imagem; o carro-chefe de sua própria alegoria marketeira criando assim, justamente esta tal sensação de pertencimento.
De fato, dentro de determinados grupos sociais que sabidamente o quesito “imagem” é mais importante do que o “discurso” e “produção artística”; freqüentemente observa-se a enorme confusão em que os fãs são sujeitos ao serem expostos a produção artística, confundindo e muitas vezes até mesmo substituindo a obra como objeto de análise e reflexão, pelo próprio artista!
O que nos leva a um segundo ponto não menos importante: No quesito estético-musical, penso que é por demais necessária a separação da noção textual “pseudo” vanguardista, 'pseudo' alternativa, para assumir a posição e função de veículo desestabilizador do sujeito comum. O 'pseudo' drama pessoal deve ser deixado de lado para a ‘arte’ finalmente possa englobar o todo e assumir a experiência representativa das grandes artes. Do contrário, não será arte digna, será o objeto-arte descartável.
Uma coisa que costumo enxergar com certa tristeza em se tratando de tal processo de marcantilização das várias formas de expressão artística, é como o marketing se apossou do próprio ânimo revolucionário que é parte importantíssima da essência do “ser” jovem. Não rebela-se hoje em dia de outro modo, que não calçando um par de All Stars ou pintando os cabelos de rosa. Não rebela-se de outro modo que não através da identificação com uma artista ou persona multimídia.
E, é com esta mesma tristeza que costumo hoje conversar com alguns admiradores que estão direta ou indiretamente envolvidos com a produção artística em si e percebem que a experiência tende a escancarar a realidade.
Percebemos que - seja a música ou seja qualquer outra forma de expressão artística -
ao passar pelas engrenagens da mercantilização, o subproduto nada mais é do que mostra clara de que caminhamos para o extermínio de espécie, uma forma de genocídio mental, espiritual e criativo. Tornou-se comum perceber como o brilho da genialidade criativa acaba se perdendo dentro do trânsito da significação subjetiva de sua obra até o seu destinatário final, os consumidores de seu produto. E este é infelizmente o caso da Emilie Autumn..
Enquanto a (im)possibilidade do grande romance contemporâneo, teremos a multiplicação de impressões pessoais disfarçadas de arte, em grande parte, movidas por aquela sensação de luto e nostalgia de tempos mais propícios a produção cultural e artística genuína..
Pesquisando algo a respeito da interação entre a estética sonora / musical e a estética visual (Procuro algo relacionado à capacidade dos sons musicais nos induzirem a sensação de apreciação plástica e arquitetônica no conjunto da obra bem como em passagens isoladas, me deparei com um trabalho muito interessante a respeito da “Peça Silenciosa”, de John Cage.
É claro que isso tem um belo cunho filosófico-existencial e às vezes, até mesmo metafísico. Acho genial. Sei que nem todos irão apreciar isso, mas por outro lado, sei que outros irão gostar e muito tanto da peça, quanto o pequeno trecho escrito abaixo bem como a dissertação “A Voz e o Silêncio em 4’33’’, de John Cage” – Juciane dos Santos
Resolvi dividir com vocês. Espero que gostem...
A primeira performance do 4’33’’ de John Cage criou um escândalo. Escrita em 1952, é sem dúvida a sua mais notável composição; também conhecida como “peça silenciosa”. A peça consiste em 4 minutos e 33 segundos em que o musicista não toca absolutamente nada. Na premiere, alguns ouvintes mais incautos não perceberam que eles não escutaram nada. Foi executada pela primeira vez pelo pianista David Tudor em Woodstock, Nova Iorque, em 29 de agosto de 1952, para uma platéia de mantenedores e doadores do Benefits Artist Welfare Fund – uma platéia que apoiava a arte contemporânea.
Cage disse: (...) as pessoas começaram a sussurar umas para as outras, e algumas simplesmente começaram a ir embora. Eles não riram – ficaram irritados quando perceberam que nada aconteceria, e, 30 anos depois, ainda não esqueceram: ainda estão irritados”
Para Cage, o silêncio deveria ser redefinido caso o conceito, devesse permanecer viável. Ele reconheceu que não existia uma dicotomia objetiva entre os sons e o silêncio; apenas entre a “intenção de ouvir” e o objeto que direcionava a atenção do ouvinte, para os sons.
“(...) O significado essencial do silêncio é a desistência da intenção.”
Esta idéia talvez seja o marco mais importante de sua mudança filosófica em termos do ato da escrita musical e a composição. Com ela, ele redefiniu o silêncio como uma simples ausência de sons intencionais; ou então, o desligar de nossas consciências.
“(...) Eu acho que minha melhor peça, ao menos a que mais gosto, é a peça silenciosa. Ela é composta por três movimentos, e em nenhum deles existe (intencionalmente) sons. Eu queria que meu trabalho fosse livre de meus próprios gostos e desgostos, porquê a música deve ser livre de sentimentos e idéias do compositor. Eu senti e tive esperanças de ter levado outras pessoas a entender que os sons de seu próprio ambiente constituem uma música muito mais interessante do que a musica que eles ouviriam se fossem a uma sala de concertos.
Eles (o público) não entenderam o ponto. Não existe tal coisa, o silêncio. O que eles pensaram ser silêncio (em 4’33’’) por não saberem como escutá-lo, estava cheio de sons acidentais. Era possível escutar o vento soprando lá fora durante o primeiro movimento. Durante o segundo, gotas de chuva começaram a cair sobre o telhado. E durante o terceiro, as próprias pessoas começaram a fazer os mais variados e interessantes sons enquanto conversavam ou iam embora.”
Fonte: Cage conversation with Michael John White (1982), in Kostelanetz 1988, 66, in: Solomon, Larry J.: The Sounds of Silence
Em épocas de garoa insistente bem como a velha e boa melancolia que teima em não me dar descanso, tenho me chafurdado em alguns bons e desconhecidos estilos musicais.
Músicas que inspiram uma certa boemia acompanhada pelos mais insensatos vinhos baratos descobri por estes tempos os fabulosos trabalhos de uma veia intitulada “Goth-Folk” ou “Dark-Folk”. Não é exatamente o instrumental que chama a atenção do “todo”, mas sim, os detalhes simplistas que não sobrecarregam a obra – o foco quando não a voz e o simples dedilhar dos violões passa a ser as texturas sonoras bem como os climinhas. Tudo muito clean, sem exageros.
Marissa Nadler definitivamente está entre o meu “Top 3” deste ano, e seu “Little Hells” tem me propiciado companhia constante em minha vida cotidiana. É interessante a sua capacidade de pintar pequenas peças poéticas em forma de música; ela e seu violão, bem como igualmente interessante o “como” a voz dela não raro se funde ao timbre das cordas. Em uma primeira audição tendemos a pensar em como esteticamente dizendo, sua musica soa simples. Mas tal simplicidade é enganadora. Suas melodias, seus vocais, são compostos de maneira totalmente esparsa, nos inspira calma, e é característica comum, uma sensação de que tais músicas são assombradas por um passado infeliz – Mesmo que tal “passado infeliz” nada mais seja do que uma criação ficcional, uma espécie de terapia em forma de música por parte da autora.
Esta foi uma musicista em cujos trabalhos fui a fundo. Soa-me cativante os temas que ela geralmente explora – uma certa característica obsessiva relacionada à morbidez dos relacionamentos diários, a tristeza inerente à alma, bem como o velar de maneira elegantemente bela e cheio de lirismo. Para alguns tudo isso seria um tanto quanto perturbador; enquanto que para outros, meramente chato.
Comparativamente, o “Little Hells” não é um trabalho tão sombrio quanto seus antecessores, mas tampouco pode ser considerado menos melancólico. Já era algo de se esperar visto a personalidade da própria musicista – quem se da ao trabalho de pescar alguma entrevista dela sabe que ela não é exatamente uma pessoa radiante; é apenas uma pessoa que prefere estar em contato com um lado mais sombrio da vida e é uma musicista talentosa o suficiente para transformar com maestria tais contatos, em pequenas pérolas cujas emoções chegam a ser palpáveis para um ouvinte mais atento.
Em um primeiro momento tinha sentido uma certa falta do acompanhamento sutil da Cellista Helena Espvall (Espers) e o uso mais freqüente de Synths bem como flerte para o eletrogoth oitentista; no entanto, após algumas cuidadosas audições resolvi não ser tão xiita e ficar reclamando sobre. Afinal, o “Little Hells”, embora claramente uma continuidade de seus trabalhos anteriores, acerta justamente por sua pegada melancolicamente charmosa.
Ótimo álbum para se ouvir em momentos de calma e reflexão; definitivamente uma bela companhia para noites solitárias.
P.S. -> Para quem tem a oportunidade é recomendadíssimo arrumar uma cópia disso em vinil...
Tenho desenterrado alguns plays de erudito para dar uma escutada nas ultimas semanas, aproveitando que ando em uma vibração mais introspectiva..
Um trabalho que tenho escutado com certa frequência pelos últimos dias são os Trios Elegíacos de Rachmaninov.
Sergei Vasilievich Rachmaninoff foi um compositor, pianista e maestro Russo, nascido em 1 de abril de 1873, um dos últimos grandes do estilo Romântico.
Por ter crescido dentro da tradição de Tchaikovsky, seguiu e se manteve fiel ao estilo por toda a vida.
Seus trabalhos geralmente são notórios por uma certa simplicidade requintada em termos melódicos. Tanto é que são suas as palavras “(...) Ingenuidade melódica, no sentido literal da palavra, é o verdadeiro objetivo de qualquer compositor. (...) Se este não é capaz de criar lentas melodias, há pequena chance de que ele venha a ter controle sobre a sua criação” – Alguém por favor mencione isso para alguns compositores modernos dentro de vários estilos musicais que se perdem em suas masturbações musicais.
De qualquer modo.. Ele teve um enorme sucesso em realizar exatamente o que disse em sus três Sinfonias, suas Danças Sinfônicas, sua Ilha dos Mortos e suas obras para piano.
Tamanho foi tal êxito que, a melodia de seu Prelúdio em Dó Menor tocada por ele freqüentemente após ter deixado a Rússia de maneira definitiva, em 1918; se tornou um sinônimo de tudo o que estivesse ligado a Rússia e nostalgia..
Profundamente tocado pela morte de Tchaikovsky em 1893, inicia no mesmo dia os estudos para um Trio em sua memória e, 6 semanas depois, completava seu trabalho em 3 partes, após ter “(...)suado em cada frase” de acordo com ele.
Notória a lugrubicidade dos primeiros compassos, com os repetitivos temas do piano bem como o sombrio e melancólico tom do violino e cello, ditam o tom da apaixonada e suplicante primeira parte – Moderatto – Allegro Moderato.
Na segunda parte – Quase Variazione - Rachmaninoff sutilmente refere-se a Tchaikovsky: Introduzida pelo piano, consiste numa série de oito variações sobre o tema principal da Fantasia para Orquestra; “A Rocha”, trabalho este que havia muito impressionado-o.
Já na terceira parte - Allegro Risoluto – os elementos da primeira parte retornam.
Revisada 3 vezes, os Trios foram publicados em 1917, com a dedicatória “à là memóire d’um grand artiste”, em uma nota final..