terça-feira, 3 de junho de 2008

1º de Junho de 2008 ou 19 de abril de 2006?

...eu morri?

1º de Junho. 1978. Foi este o dia e ano em que nasci.

Domingo. 1º de Junho, 2008. 30 anos. 3º Decanato em minha vida.

Cerca de 2 anos agora, passei três semanas internado no Hospital Municipal de Diadema por conta de um pneumotórax. No início os médicos acreditaram que apenas a sonda e o dreno já bastaria, depois meu próprio pulmão iria se recuperar e fechar a fissura. Em cerca de 90% dos casos é assim que funciona; infelizmente estive entre os 10% sortudos que são premiados com a necessidade de uma toracotomia, isto é; uma abertura entre as costelas que permite o acesso aos órgãos que ficam dentro da caixa torácica. Muito estranho pensar que, ao menos uma vez, no mínimo cinco pessoas – os médicos e enfermeiros – viram meu coração literalmente pulsando, exposto assim, em uma mesa cirúrgica. Talvez tenham até mesmo tocado nele. Vivo.

Na terceira semana, retiraram o dreno do meu pulmão e fizeram a sutura. Dois dias depois, tive alta.

Me lembro que naqueles dias, cerca de 2 semanas após minha internação quando soube que iria passar pela cirurgia, pensei claramente: - “Pronto, agora acabou. Terminou meu tempo aqui neste mundo”. Tinha a certeza absoluta de que não sairia vivo daquele hospital mesmo sabendo que, apesar da amplitude do procedimento cirúrgico, em si ele era bastante simples...

Após estes dois anos e pouco, meu pulmão esta 100% curado – embora ainda não tenha largado o cigarro, que merda. O único vestígio da cirurgia são as duas cicatrizes que tenho abaixo da minha axila esquerda. Uma com cerca de 20 centímetros, por conta da Toracotomia e outra, de aproximadamente 5 centímetros, aonde a sonda entrava e seguia longamente por dentro de meu peito, até se alojar em meu pulmão.

Mas por algum motivo... O que sou hoje, o que me tornei e a maneira que enxergo o mundo... Até a luz e sons; são diferentes daquele dia em que fui internado. Meu pensamento é diferente. Por vezes, extremamente embotado, como se eu vivesse em um constante estado de sonho. Por outras, extremamente lúcido e vívido, como se estivesse vivo como jamais estive antes. Socialmente, meus pensamentos são mais claros, sobre os “porquês” de muitas coisas serem como são. Embora ainda não saiba o “porquê” de estarmos aqui, sei exatamente que este porque em si, se perdeu há muito já. Fomos desviados de nossa verdadeira natureza em algum ponto de nosso processo evolutivo como espécie. Mas este é outro assunto.

O que relato aqui é uma sensação muito mais profunda, quase algo da alma. Às vezes penso que é bem possível que de fato eu nunca cheguei a deixar aquele hospital. Às vezes penso que houveram complicações durante o procedimento e de fato, eu vim a falecer no dia 19 de abril de 2006, uma quarta feira. Às vezes penso que vivo preso em um refluxo de pensamentos espirituais já que não existem mais estímulos externos forçando uma “entrada” de experiências sensoriais e impedindo a “saída” de pensamentos em um fluxo constante. Portanto deixei de ser um receptor para me tornar um emissor. Mas não faz sentido, pois este refluxo em si é fisiológico, coisas do cérebro.

Enfim... Qual o sentido deste papo todo? Para mim, nenhum... Apenas meu cérebro – ou mente e espírito, vai saber – tirando a poeira de velhos arquivos em forma de memória e divagando com isto...

Mas e você? Que sentido vê nisto tudo? Você soube de minha morte; e se soube, foi ao meu enterro? Porquê atualmente sinto dúvidas se o que vivo são respostas à realidade, ou meros resquícios de memórias que meu espírito ainda carrega consigo.

Talvez eu não tenha 30 anos... Talvez eu tenha só 28...

19 de abril de 2006, uma quarta feira... Dois anos e 2 meses...

Um comentário:

patricia disse...

andreas??