terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Arcani Vis Et Natura


Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá.

- Marcel Proust, “No Caminho de Swann”

É isso.


Eis que janeiro se foi; e junto com, algumas pessoas profundamente amadas cada qual ao seu modo. Algumas alçaram novos rumos, novos ares, se mudando para longe. Seja por um período predeterminado com data de retorno marcado, seja porquê deixaram este mundo, jazendo a partir do fato, para a memória coletiva e para a saudade e lembranças dos que tiveram a honra de conviver com.


Janeiro foi um mês de perdas. Graves perdas. Grandes perdas. Ao mesmo que, Janeiro também foi um mês de reconciliação e reparação com o passado. Os anos se foram. O passado assumiu seu lugar; “passado”. Meu caro amigo Walter, que descanse em paz.


Me é impossível deixar de pensar que nada mais somos do que o fruto por amadurecer de situações ou sentimentos baseados no equívoco, e tal é responsável pela eterna sensação ambígua de que vivemos uma espécie de realidade absolutamente irreal. Somos nada mais do que sonhos surrealistas encarnados. Confusos. Malucos. Etéreos. Nonsense.


Por mais que procuremos analisar de maneira sincera, é humanamente impossível distinguir de maneira clara os contornos de nossas emoções. A fundamentação reside no fato de que todos, em maior ou menor grau, apresentam uma incapacidade estrutural de comunicarem-se entre si bem como comunicarem consigo mesmos. Todos vivemos sós no mundo - seja este interior ou exterior – no qual os “outros” são meras sombras. Nos falta; não importando se somos jovens, velhos, cínicos ou idealistas; uma exata noção de identificação que transforma a passionalidade em coisa amada. Enquanto isso, os objetos de nossos amores são apenas isso: Objetos. Traduzindo, todos somos absolutamente egocêntricos e egoístas. E, igualmente ignorantes do fato. Todos optamos pela aparência, e não a realidade. E sendo assim, a realidade não representa nada para ninguém. Absolutamente nada. A “vida”; está em outro lugar que não aqui...


Claro, irão me criticar por dizê-lo. Mas afinal, como viver o “nós”; sem sermos obrigados a sairmos do que é verossímil? Como viver sem sermos meros joguetes de uma espécie de deliro ativo da paixão? Em outros termos, como viver sem ser louco?


Não tenho mais interesse no que pensam ou deixam de pensar a respeito dos meus próprios pensamentos. Não tenho mais interesse no mundo que me rodeia quando em essência; a base de todos os meus questionamentos é de ordem metafísica - longe de estarem calcados no que é real ou irreal. Não tenho mais interesse no exterior.


Minhas respostas residem no onírico. Em outros planos. Nas vibrações. Na freqüência. Nos pulsos. Em melodias. Nuances. Porquê me soa correto pensar que o externo é definido por uma enorme paleta de acordes internos; em resposta ao próprio meio externo.


Portanto; é pela experiência; pelo prazer, pelo deleite e um certo “q” de hedonismo, que prefiro assumir a face do abismo. É nesta espécie de “des”correção do espírito que hoje percebo que o passado me colocou aí; com o futuro escancarado e vivendo de tudo um pouco... Obrigado.


Sou o que sou. Da minha vida, trabalho em queda livre o observar silenciosamente as máscaras deste mundo. De vez em quando tomo certas liberdades e anotações que me fazem sentido: vide algumas masturbações mentais espalhadas por este blog. E é pela queda que entendo que se dá o renascimento. O “acordar” de uma vida trivializada, negada e escravizada ao ego socialmente imposto. E, é pela queda que encontramos a possibilidade de nos dissolvermos – e porquê não? – sermos absorvidos pela misteriosa matriz de sentimentos que se encontra ao nosso redor; no entanto, apenas acessível apenas a quem de fato deseja.



O curioso? É a bizarra constatação de que entre tantas perdas e alguns esparsos ganhos; constantemente vivenciados com ares de uma doce profanação social; embora solitário, eu me encontro melancolicamente feliz...


É, meus caros... 2010 segue em alto e bom tom.







4 comentários:

Paula disse...

é, Tio Andreas...percebo que estas realmente um tanto confuso em meio de tantos pensamentos, e críticas...mas na verdade vc está certo em tudo o que diz! Parabéns por esse texto tão cheio de VOCE...e que diz muitas vezes algo que as pessoas não querem ouvir, entender, ou que até entendem, mas não querem adimitir que voce está certo! ou parcialmente certo! isso é tudo, ainda estou um pouco abalada de tanta verdade, hahahaha! continue assim, não perca a SUA essencia! jamais! bjos

Roberto disse...

Olá Andreas. Como vai?
Acompanho há tempos o trabalho que vêm desenvolvendo nesta página e quero parabenizar a todos vocês que participam. Saliento a desenvoltura, leveza e perspicácia com que abordam vários temas aparentemente tão dispares entre si mas com um ponto fundamental de interligação: conteúdo cultural refinado, crítica comportamental estruturalista e um aparente ponto de vista outsider limítrofe. Isenção mercadológica e ausência de grupo pré-definido de expressão social. Estou desenvolvendo tese acadêmica que busca vincular o movimento de Arte Outsider a aspectos da psique underground contemporânea.
Resido em São Paulo, Capital.
Me chama a atenção alguns insights e peculiaridades de seu texto.
Gostaria de saber da sua disponibilidade de tempo para bater um papo caso lhe interesse minha linha de pesquisa.
Aguardo um retorno,
cordialmente
Roberto Amaral

Chatita disse...

Você sempre me surpreende, desde a primeira vez que te "li", rsrs. De fato, nada melhor para restabelecer nossa sensatez interior do que o choque. Todas as vezes em que me deparei com grandes perdas na minha vida, foram os momentos onde mais me centrei, amadureci e aprendi de forma árdua, porém real, de que nada mais somos além de visitantes nesse mundo, mas que podemos deixar nessa visita, grandes e boas marcas em outras pessoas que só com o passar do tempo, compreenderão o quanto foi importante a convivência mútua.
Somos indivíduos na essência da palavra e por isso, temos o direito de sermos emocionalmente egoístas quando precisamos disso, como a fonte que recarrega nossa energia e nos faz mais resistentes para o que ainda virá. Dessa forma aprendemos a valorizar mais os pequenos detalhes que nos cercam e nos fazem tão bem e tão felizes, pois são esses os melhores momentos que você pode compartilhar com você mesmo ou com alguém. O bom de tudo é o que está no agora e no agora está você.
O tempo segue em frente...

Um beijo da sua admiradora, rsrs!

Karlinha.

Cecil disse...

Belo texto. Disse tudo. pena que eu perdi o tempo de lê-lo enquanto estava fresco. Porque eu ando perdendo o tempo, em fase de sonho. Parafraseando um famoso personagem de Tolkien, parecemos às vezes estar nus no escuro.