domingo, 23 de agosto de 2009

Expressão artistica da morbidez social



Para ler ouvindo “Melos”, de Tsabropoulos, Lechner & Gandhi:


De repente eu deveria ter me graduado em filosofia, ou talvez filosofia da arte.


Atualmente meu irmão está finalizando seu mestrado cujo tema é basicamente como o espaço público hoje, tem se misturado à esfera da vida privada no cotidiano humano. Interessantíssimo.

Mas me chamou a atenção uma conversa que tivemos por estes dias sobre a expressão artística; “o que é” e “quais os seus limites” e, em uma escala mais elevada, “o que é arte”, afinal. Bingo, um período de iluminação momentânea.


Não quero soar polêmico, embora eu saiba que em minha essência, existe algo que incomoda muita gente.


Pois bem:


Em 2007, o artista plástico Costarriquenho Guillermo Vargas Habacuc fez uma “instalação” que causou polêmica, intitulada "Exposición N° 1, em uma mostra artística realizada na Galeria Códice, em Manágua. Na entrada da exposição, ao som do hino Sandinista tocado ao contrário, os visitantes liam a frase "eres lo que lees", cuja as letras eram formadas por comida de cachorro.

Na seqüência, viam um pobre cachorro visivelmente debilitado, amarrado, a definhar de fome até a morte. Naturalmente isto causou protestos, inclusive por parte deste que vos escreve. Tal cachorro recebeu o nome de “Natividad”, e permaneceu amarrado até o dia seguinte a abertura da exposição, quando morreu de fome diante dos expectadores.


Em 2000, o Dinamarquês Marco Evaristti criou uma instalação no museu Trapholt Kuntmuseet, perto da cidade de Kolding; em que foram posicionados 10 liquidificadores em linha reta em uma sala, cada um deles contendo água e um peixinho dourado. A instalação, batizada de "Eyegoblack", convidava os visitantes a acionar os botões dos liquidificadores; podendo ligar o aparelho e moer o peixe vivo - e segundo testemunhas, os liquidificadores foram acionados inúmeras vezes.



E, posteriormente, em 2006; o mesmo Dinamarquês criou outra instalação, desta vez na galeria Aalborg, na qual colocou a venda almôndegas feitas de sua própria gordura e embaladas com sua foto. Tendo aproveitado a gordura extraída de uma lipoaspiração, cada almôndega foi vendida á bagatela de US$ 4.390,00. E, como se não bastasse, algumas das – no mínimo perturbadoras – iguarias, foram consumidas em um happening. O título desta instalação era Polpette al grasso di Marco, ou; "Almôndegas com a gordura de Marco”.


Das três instalações acima; coloco agora sob perspectiva de duas outras – muita atenção a estas - que o próprio Evaristti já havia realizado anos antes: Uma instalação em que havia exposto seus próprios excrementos recobertos com folhas de ouro incrustadas com moscas de diamante; e outra, em que exibia uma Ferrari com um cadáver embalsamado dentro.


Sou absolutamente contra a utilização de quaisquer espécies de seres vivos em instalações artísticas que não o próprio ser humano, pois este, supostamente é dotado de um falso senso de livre arbítrio. Não temos este direito. Mas por outro lado, sou infinitamente menos complacente com o ser humano. Não me incomodaria tanto em ver um condenado definhando, ou então, outro sendo moído em um liquidificador.


No entanto, existe um significado perturbador, muito mais profundo; na discussão de tais polêmicas instalações. Algo que os críticos de arte, público leigo bem como defensores dos direitos humanos ou dos animais, não pegaram nas entrelinhas.

É perigosíssima a tentativa de analise de tais obras sob o risco de cair em alguma espécie de julgamento ético ou moral sobre o ato em si; quando a problemática, a questão real, é sobre o que tais obras versam, e não a crueldade existente nas mesmas.


A questão real neste caso é a mídia, publicidade & marketing. E tais obras, são o veículo de uma critica furiosa e violenta quanto ao status do que damos – e acreditamos – serem reais valores ao que buscamos, almejamos enquanto seres existenciais. É sobre a futilidade do nosso dia a dia. É sobre a brutalidade das nossas relações interpessoais bem como com o mundo.


Somos uma geração estúpida, em que acreditamos que o real valor existencial está nas sandálias que a Gisele Bündchen usa, e que se as usarmos, talvez estejamos a um passo mais próximo a ela. Somos uma geração que acredita que ao termos um carro do ano com sistema GPS, 6 airbags, motor de 170 cavalos e detector de proximidade, seremos melhores do que a grande massa que nos rodeia. Somos uma geração doente, egocêntrica e com um senso deturpado do que é o real e o que é o imaginário. E pior, não sabemos discernir o que é o que, de fato. Somos a geração em que foram cristalizados os valores do que é arte. Do que é belo. Do que é feio. Do que é grotesco. Do que é normal. Do que é anormal. Somos a geração que industrializou e otimizou a criação de outros seres vivos apenas para processá-los em fábricas, pendurados em ganchos, esperando para serem fatiados, triturados e enlatados.


É o caso da velhinha que se senta em uma sala de concertos, e presta atenção em cada nota, cada acorde do Montagues and Capulets de Prokofiev com olhar severo e crítico, mas esquece do “deixar-se levar” e sai dali direto para uma sessão de carnes congeladas de um supermercado. Somos a geração dos que seguem regras impostas por uma mídia de caráter plenamente comercial, e em nome de tal caráter, quantificamos os valores individuais em termos de cifras e do que você veste ou deixa de vestir. E, não é questão de livre arbítrio, é “engula” ou está fadado a andar a margem da “sociedade”, sendo constantemente apontado como um “freak”.


Neste contexto, as 3 instalações acima, sob a ótica das duas ultimas que citei, nos dão uma perspectiva inteiramente nova ante a discussão sobre o que é e o que não é arte. E, estou longe de ter a competência necessária para discutir isso, visto que não tenho gabarito para tal. Mas, o que está claro através delas é que: A arte, por mais grotesca que ela possa parecer – e vejam, novamente reafirmo a minha discordância quanto aos pobres animas “objetizados” em tais instalações – assume um papel de absurda importância; pois é justamente ela que faz frente à mídia. A livre expressão artística não dogmática – e porquê não, até mesmo militante, libertina – é o único veículo de expressão individual que hoje, é capaz de fazer frente e combater o “espectro da coletividade impositiva dos bons costumes e gostos politicamente corretos”; isto é, desmontando, analisando, escrachando e conseqüentemente, tornando evidentes o quão frágil, imbecis e hipócritas são as estruturas de valores que o ser humano carrega consigo hoje. É o único veículo não contaminado com “direcionamentos” criativos artísticos vindo de fora. É o único veículo apartidário, livre e; portanto, dotado de fluidez criativa e informacional total. Este é o ponto. Através de tais “instalações” “artísticas”, por mais hediondas que as mesmas possam ser, nada mais vemos do que o encarar da vivissecção da própria alma humana, se é que existe uma.


...e, aí do próximo que quiser bancar o sabichão pregando que nada mais se criou de bom musicalmente dizendo, após o período barroco; vai tomar uma bela palmatória de arco Chinês...


Ponto.


Finalizando – e nada a ver com o assunto (em partes) - deixo-os com o fabuloso curta Francês chamado “Dix” que aliás esteve no Anima Mundi. Vale muito a pena.



Curta Metragem Francês “Dix”
















2 comentários:

Santa Cecilia disse...

Bem, como sempre seu texto é brilhante, mas devo discordar da suposta capacidade de questionamento da hipocrisia e ditadura do "bom gosto" implícita nas grotescas instalações. Isso porque nesse tipo de instalação, a meu ver, nada mais há do que um gigantesco egocentrismo mórbido, uma exaltação à originalidade sem limites, um elogio à necessidade de exibir-se de forma radical e violenta para ober incensamento de crítica e público, ou mesmo quando isso não ocorre, um incensamento do "artista" por ele mesmo, já que uma salva de vaisas e críticas e outra forma paradoxal de incensamento e elogio.

Desculpe minha grosseria aqui, mas é que a notícia desse bandido que matou um cachorro indefeso diante dos olhos de outros monstros grotescos (o público abobalhado e incapaz de ir lá, meter a porrada nesse filho da puta e soltar o cachorro, ou alimentá-lo, e a a curadoria da exposição que permitiu tal abominação... todos mereciam cadeia e eu me espanto que ninguém tenha sido preso): um filho da puta desse merecia nem ser citadoem qualquer texto ou exemplo, ele merecia definhar na prisão de inanição depois de ser currado por todos os presos. Não sou contra a lei do dente por dente em certos casos, como crimes hediondos dessa natureza.

Carlos Cunha disse...

Meu!
Muito bacana este blog.
Elucidativo e sobre todos os assuntos postados o autor demonstra um profundo conhecimento com uma visão crítica sob todos os aspectos.
Parabéns meeeeeemo!
Vou acompanhar!!!