sábado, 8 de agosto de 2009

Violinos, Cello, Rock Pt. 23 - "Devil Doll - Dies Irae" ou "A Catarse da loucura através da Música"


"Devil Doll - Dies Irae" ou "A Catarse da loucura através da Música"

É fato que a grande maioria dos artistas, independente da forma que os mesmos escolheram para se expressar, se analisados sob uma ótica comportamental; não é raro encontrarmos indícios de que o produto de sua arte nada mais é do que um reflexo de seu transtorno.


A Expressão artística em minha opinião é a possibilidade da catarse da dita genialidade e loucura de uma mente criativa, direcionando tal energia á produção. O produto final de tal processo é o “escape”; a condensação e solidificação de tais pensamentos e idéias na forma do “objeto”; garantindo assim uma possibilidade de que a mente siga adiante quase intacta, pois esta, sublimou a energia conflitante.


Tendo isto em mente, é fácil perceber o quão frágeis são os conceitos populares sobre o que é de fato a loucura, a normalidade, desvios sociais ou comportamentais. Na verdade em maior ou menor grau;

todo – inclusive este que vos escreve – possuem algum traço na forma e no caráter que indica um determinado transtorno comportamental. A resposta está em “como” lidamos com este tal transtorno. Alguns gritam. Outros esmurram. Vários tentam a crença. E outros, criam. Mas todos, invariavelmente, julgam.


Gosto do texto de Bruno Gagliasso para a apresentação de uma peça sobre Van Gogh; de certo modo ele explica bem a mecânica da pressão social / existencial x produção artística na tentativa da manutenção da própria sanidade.


"Quem nunca se sentiu um pouco como Vincent? Não louco, mas enlouquecido. Não fracassado, mas incompreendido. Não sozinho, simplesmente inadequado. Como manter a lucidez e a determinação contra toda uma sociedade que não é capaz de te compreender? E pior, que te obriga a ser outra coisa?

Van Gogh nunca se rendeu.

Uma luta contra tudo e contra todos. A convicção mais forte do que qualquer outra cois

a. A sociedade tentou enlouquecê-lo, e em alguns momentos conseguiu. Mas se nas artes os fins justificam os meios, Vincent venceu.

Van Gogh está em todos que um dia ja se sentiram inadequados. Forçados pela sociedade a fazer algo. Forçados a se transformar em algo que não são. Fernando Pessoa disse que o coração, se pensasse, pararia. E Vincent, só coração, não parou nem por um segundo. Ou talvez só no último segundo – quando pensou.

Há muitos Vincents Van Goghs espalhados pelo mundo (...)”



Uma coisa curiosa e que gosto muito aqui no “Vinho & Cigarros”, é que – excetuando-se os grupos musicais que transitam no mainstream e transformaram sua produção em algo próximo a escala industrial, apresentando um trabalho já pasteurizado – trabalhamos artistas e temas que sustentam o que está escrito acima; e pode-se facilmente notar fortes traços do processo de catarse envolvido na atividade criativa. Melora Creager do Rasputina faz isso em suas composições. Human Drama ídem. Lisa Hannigan o faz de uma maneira incrivelmente doce e bela. Antony & The Johnsons em seu travestismo sonoro e visual alcança resultados lindos.




Assim como os admiráveis desconhecidos deste projeto Ítalo-Esloveno chamado “Devill Doll”.


Liderados pela misteriosa figura conhecida por “Mr. Doctor” – possui formação em Filosofia Artística, Artes Visuais e Criminologia bem como aparentemente em Música - praticam uma espécie de rock sinfônico que em muitos momentos chega a beirar o gótico; aonde colocam em prática todo este papo de catarse emocional descrito aí em cima. Em alguns momentos, é possível sentir de uma maneira brutalmente incômoda e desconcertante, toda a carga emocional impregnando o trabalho. Dói. Literalmente caminha pelo fio da navalha entre a insanidade e a genialidade.


De alguma forma, penso que caso não fosse este projeto há muito a mente do Mr. Doctor já teria se rompido - Se é que de fato não o fez.


Pouco se sabe a respeito deste projeto, pois ele é levado adiante no sentido extremo do termo “projeto pessoal”. A grande maioria do material que já foi gravado nunca foi lançado. E, apresentações ao vivo são tão raras quanto o material em si. O pouco que existe disponível são itens de colecionador; tendo sido lançados em tiragens baixíssimas em termos de mercado. E isso é algo curioso, pois, se analisados os componentes do projeto, é de se admirar que o mesmo seja levado a cabo desta forma. Vejamos:


Desde seu primeiro trabalho, as sessões orquestradas foram feitas em colaboração entre a banda e a Orquestra Sinfônica Eslovena completa. O caso é que o 1º violinista da orquestra, Sasha Olenjuk, foi o primeiro membro do Devil Doll.


Todos os envolvidos entendem que não produzem música vendável e, portanto a comercialização e a realização de shows, não é seu foco. Crêem que estão realizando algo que em termos artísticos possui um valor devastador; capaz de quebrar uma série de paradigmas não apenas em termos de conceito, mas também no senso de estética musical, poesia e na extrapolação da fusão do termo erudito, progressivo, rock sinfônico e dark rock. Isto poderia soar demasiadamente prepotente ou arrogante, mas após algumas audições dos álbuns desse pessoal, entende-se porquê afirmam isso.


As sessões de gravação do “Dies Irae” – disponível aqui - renderam algo em torno de 900 minutos de música. No entanto, o álbum foi disponibilizado em 3 tiragens limitadas. A 1ª, apenas 50 cópias, e as 2 últimas, 900 cópias cada; em um total de 1850 cópias apenas.


As influências eruditas estão fundidas com outras influências mais modernas no trabalho todo; e o resultado geral funciona de maneira simbiôntica. Não é difícil identificar elementos dos trabalhos de Shostakovitch, Bartok ou Bernard Herrmannn; bem como outras como por exemplo, do Cabaret Alemão. Pode remeter ao Dark Cabaret de hoje em dia; mas logo percebe-se que é apenas uma impressão: Acreditem, é algo muito mais doentio, perturbado e perverso. Está mais para uma versão deturpada, corrompida e deformada de “Alice no País das Maravilhas”, “Mágico de Oz” ou os antigos contos de fadas.


E, não pensem que pelo descrito acima, possam seguir uma linha do Black Metal. Não, não é diversão barata, são refinados demais para isso.

Se o instrumental total já é algo que impressiona; as vocalizações - por vezes bela, por vezes angustiada, mas definitivamente sempre permeadas de uma insanidade visivelmente clara de Mr. Doctor - são um show à parte. Cada palavra é dotada de uma cor específica, e em sua técnica vocal, ele praticamente transforma sua voz em um instrumento.


Costuma definir a música do Devil Doll como desagradável e incômoda, e prega que a expressão artística, como processo de expurgo psicológico, deve ser algo que machuque; e que a mesma, não tem que aparentar bela; muito pelo contrário. Tanto que, existem relatos que nas sessões de gravação e também nas raras ap

resentações em público; Doctor aparentava entrar em uma espécie de transe, como se os seus olhos estivessem literalmente virados para dentro; buscando inspiração dentro de sua mente, e ignorando todos os demais presentes.


Particularmente não acho o resultado de seu trabalho desagradável. Existem partes que posso considerar incômodas por serem desconcertantes. Da mesma maneira que existem partes em que ele consegue uma melodia dotada de um lirismo e beleza ímpar. É quase um contraste entre o que existe no céu e no inferno – lembrando que, o Inferno aos olhos de alguns pode ser igualmente belo.

Trabalho dificílimo de definir. Por outro lado, é um trabalho que merece uma carinhosa e cuidadosa audição. Alguns irão sentir repulsa. Outros, ficarão cativados. E outros ainda, definitivamente ficarão indignados. Mas é certeza que todos, de uma forma ou de outra, sentirão alguma coisa.



Link: Devil Doll - Dies Irae





















3 comentários:

Santa Cecilia disse...

Texto muito elegante e com boas ideias. Aliás, ele é muito melhor do que o pŕoprio disco em si, na minha humilde opiniãozita. Mas concordo sobre a maturidade e originalidade do trabalho, da figura desse Mr. Doctor e sobre a expressão artística como catarse. Afinal, o belo e a arte não são o que nos agrada e acalenta, como escrevi a respeito das velhinhas chatas das salas de concerto... é o que há de mistério fora e dentro da humanidade, seja feio, agonizante, perturbador, ou sedutor, hipnotizante e encantador. O feio pode ser extremamente belo nas mãos certas. O que os gatos intuem no escuro, as crianças temem na madrugada e os esquizofrênicos apenas podem enxergar nos cantos das salas.

Andreas disse...

Questão de gosto querida Cecilia... :)
Enquanto respondo a este post, vou do elegantíssimo trabalho que tinha lhe passado, "Anja Lechner & Vassilis Tsabropoulos".
Pena que seja ainda 7:15, muito cedo para pensar em Vinhos... (Hoje minha boemía não está tão exacerbada! rs)
Sempre tive uma queda por tudo o que se refere como “loucura” – sendo que considero esta, uma coisa um tantinho relativo; loucura enquanto não constatada como determinada espécie de patologia, é “intriga da oposição” rs.
As velhinhas das salas de concerto tendem a achar que alguns movimentos ou formas de expressão artística, seja dentro da música, artes plásticas ou literatura são exemplos de extremo mau gosto e portanto, não merecem o rótulo de “arte”. Assim, me pergunto se a naftalina usada em seus guarda-roupas não anda fazendo mal ás sinapses dessa turma toda... rs
Mas é uma discussão interessante: O que é feio? O que é belo? O que é loucura? O que é genialidade? E, muuuuito além disso... O que é “normalidade”?
Sempre desconfiei desse papo todo... rs

Chico Mouse disse...

Faaaaala, Andreas! Tudo tranquilo comigo, cara! E vc, como anda? Minhas aventuras cellisticas andam meio "autodidatas demais", sabe... tenho que voltar a estudar, sinto que estou perdendo leitura... e ganhando alguns vícios ruins...

Mas continuo com meu projeto de gravações caseiras... ainda estou apanhando um pouco, mas já melhorei... assim que estiver "audível" eu te mostro, tá? :P

Abração, brother!