quinta-feira, 28 de maio de 2009

Primórdios das mulheres no Cello - Guilhermina Suggia

Adaptado do texto de Fátima Pombo, Instituto Camões

Muito se comenta da nossa saudosa Jacqueline du Pré como ícone representativo das Cellistas contemporâneas.

No entanto, pouco se fala das primeiras gerações de Cellistas mulheres; as que abriram as portas para um mercado salvo raras exceções, essencialmente masculino.

Guilhermina Suggia foi uma excepcional Cellista Portuguesa, nascida em Porto, em 1885, foi a primeira mulher a fazer carreira a solo e a atingir tão grande êxito nessa profissão. De ascendência Italiana e Espanhola, desde muito cedo esteve envolvida com música. Iniciou seus estudos aos 5 anos de idade tendo seu pai como professor – Ele, Cellista no Real Teatro de São Carlos e professor no Conservatório de Música de Lisboa.


Claro, existiram outras mulheres anteriores a Suggia ou da sua geração que foram talentosíssimas musicistas e Cellistas, mas não atingiram o êxito desta primeira. Lisa Cristiani (1827-1853), parisiense, foi uma das primeiras Cellistas de que se tem conhecimento. No entanto, apesar do reconhecido talento de Lisa, diz-se que tinha um som pouco expressivo.


Gabrielle Plateau (1855-1875), belga, de quem se sabe muito pouco, é considerada possuidora de uma técnica brilhante, mas também sem um som poderoso.


De Beatrice Eveline (nasceu em 1877, desconhece-se a data da sua morte), inglesa, sabe-se que fez tours na Europa como solista. É, no entanto, May Mukle (1880-1963) que é considerada a pioneira das mulheres Cellistas, na Inglaterra e a primeira a conquistar o status de concertista. Beatrice Harrison (1892-1965), filha de ingleses, nasce no Noroeste da Índia. Fez o seu début com 15 anos, e foi a primeira mulher a tocar no Carnegie Hall e a primeira a ser convidada como solista pelas Orquestras Sinfônicas de Boston e de Chicago.


Na geração seguinte a Guilhermina Suggia destaca-se Thelma Reiss (Plymouth, Inglaterra,1906) e Raya Garbousova (Tiflis, Rússia, 1909). Ambas tiveram aulas com Suggia.


Cellistas como Antonia Butler (Londres, 1909) ou Florence Hooton (Scarborough, 1912) têm de ser consideradas fundamentalmente, como professoras.


Zara Nelsova (Winnipeg, Canadá, 1918) marca o início de uma geração de mulheres violoncelistas que já não estudaram diretamente com Suggia, mas que continuam a reconhecê-la como referência ímpar. Nelsova toca em 1950, no primeiro concerto que se realiza em memória de Guilhermina Suggia, com a Orquestra Sinfônica de Londres, dirigida por Sir Malcolm Sargent, na Royal Academy of Music.


E, como mencionado no início deste post, talvez a mais conhecida Cellista feminina, dotada de uma capacidade interpretativa belíssima que também é ligada ao nome de Suggia, é a brilhante Jacqueline Du Pré (1945 -1987) que ganha, com 10 anos, o Prémio Suggia, o qual lhe permite estudar com William Pleeth na Guildhall School of Music.


Guilhermina Suggia era uma mulher muito culta. Uma mulher de muitas experiências, uma conquistadora nata, tinha uma lógica própria e relacionava-se com o mundo a partir dessa lógica. Falar do seu temperamento implica falar de música, porque a vida de Suggia é acompanhada sempre de música e do Cello. Apesar do seu talento, estudava muitíssimo, motivada por um ideal de perfeição estilística e musical. Para Suggia, o Cello é o mais extraordinário de todos os instrumentos, considerando-o como o único que tem a capacidade de sustentar um baixo por um longo período e a possibilidade de cantar uma melodia praticamente em qualquer registro.

Porém, para que se revele a substância musical do Cello, é preciso que a técnica não seja estudada apenas como destreza, mas que tenda sempre para a música. “A técnica é necessária como veículo de expressão e quanto mais perfeita a técnica, mais livre fica a mente para interpretar as idéias que animaram o compositor”. [Guilhermina Suggia, “The Violoncello” in Music and Letters, nº 2, vol. I, Londres, Abril de 1920, 106].


Suggia dedica uma atenção muito sutil aos pormenores. Em Londres, quando mora num segundo andar, tem uma vizinha que se queixa que, num dos apartamentos do andar de cima, além de dar aulas de violoncelo, toca continuamente. Acrescenta ainda, com humor amargo, que Suggia se mudou para lá no Outono de 1922 e que até então, 1924, não deixou de tocar. Suggia fixa-se em Londres a partir de 1914 e só regressa definitivamente a Portugal nos anos 30.


A formação de Suggia, depois do que aprendeu com o pai e da experiência no Quarteto Moreira de Sá, é aperfeiçoada na escola alemã de violoncelo, que nos finais do século XIX e início do XX é a mais conceituada. Suggia parte para Leipzig em 1901 com uma bolsa de estudo concedida pela Rainha D. Amélia para estudar no Conservatório de Leipzig – conhecido pela exigência de ensino e pela exigência na seleção de alunos – com o professor Julius Klengel (1859-1933).


Sobre a sua discípula, informa Klengel num certificado, datado de 19 de Junho de 1902, que “sem dúvida não tem havido uma violoncelista com o mérito da artista de que me ocupo, que também não tem nada a recear no confronto com os seus colegas do sexo masculino. Mlle. Suggia, possuindo alta inteligência musical e um completo conhecimento da técnica, tem o direito de ser considerada, no mundo artístico, como uma celebridade”.


Klengel profetiza que Guilhermina “cheia de talento, conhecedora de todos os segredos do violoncelo, começa a subir e há-de ir tão alto que ninguém a atingirá”.


A profecia de Klengel realizou-se logo a seguir ao período de Leipzig, com Suggia a tocar com o maior sucesso nas mais prestigiadas salas de concerto Européias. Suggia, que sempre elogiou o professor Klengel e os seus extraordinários ensinamentos, destaca também a influência de Pablo Casals (1876-1973).


Em 1906 Suggia está em Paris, toca nessa altura para Casals e ainda durante esse ano começa a partilhar com ele a mesma casa, a Villa Molitor. O primeiro encontro com Pablo Casals foi no Verão de 1898, em Espinho. Casals tinha sido contratado pelo Casino de Espinho para tocar durante o estio, nas noites do Casino. Eram sete músicos, mas uma vez por semana Pablo Casals tocava a solo e dele se dizia que “transformava um café numa sala de concertos e esta num templo”. O pai de Guilhermina, atraído pela fama do violoncelista, pede-lhe para ouvir a filha (com 13 anos) e Casals, entusiasmado com o som dela, aceita dar-lhe aulas. Guilhermina passa o verão viajando em lentos comboios, entre o Porto e Espinho, carregando seu Cello, enquanto Casals ali trabalha.


Encontram-se outra vez em Leipzig, durante as visitas do catalão ao professor Julius Klengel.


Com Suggia e Casals vivendo juntos em Paris na Villa Molitor, está formado o casal mais famoso e talentoso de Cellistas. A casa situava-se na zona de Auteuil e estava alugada a Casals desde Janeiro de 1905. A Villa Molitor faz parte de um bairro de 25 casas. Casals alugou o nº 20 por ter um pequeno jardim e ficar no fim da rua. A casa tem três pequenos andares: a cozinha no térreo, a sala de jantar e a sala de visitas no 1º andar, dois quartos e banheiro no andar de cima.


No fim da Primavera ou início do verão, quando acabava a temporada de concertos e os músicos regressavam das suas tours, encontravam-se todos na Villa Molitor e daí resultavam extraordinários récitas musicais. Lembrou Casals mais tarde que tocavam juntos “pelo puro amor de tocar, sem pensar em programas de concerto ou horários, em empresários, bilheteiras, audiências, críticos de música. Apenas nós e a música”. Desse círculo de amigos faziam parte, entre outros, os pintores Degas e Eugène Carrière, o filósofo Henri Bergson, o escritor Romain Rolland, os músicos Ysaÿe, Thibaud, Cortot, Bauer e compositores como d’Indy, Enesco, Ravel, Schönberg, Saint-Saëns.


Durante o período Parisiense, encontra-se na revista Le Monde Musical muitas referências entusiasmadas às interpretações de ambos.


O ano de 1913 é devastador para a relação Suggia-Casals. O violoncelista pretende sepultar no mais profundo esquecimento aquele pedaço de vida a que ele se referiu como o “episódio mais cruelmente infeliz da minha vida”. Suggia, quando mais tarde se referir a Casals, será na qualidade de violoncelista e nunca no plano amoroso.


O quadro que Augustus John pintou de Guilhermina Suggia em 1923 traz para a tela, a têmpera de Suggia quando toca em público. Durante as sessões no atelier do pintor, Suggia tocava Bach. Essa imagem que o artista tão irresistivelmente captou é um legado para a posteridade sobre a atitude interpretativa de Suggia. No palco encarna a figura da prima-dona que domina a música.


Quando entra é uma aparição imponente e desde esse momento começa a magnetização do público ao unir a técnica e a compreensão absoluta da obra. É comum ler-se nas críticas que os aplausos são estrondosos, ressoando nas salas com assistências enfeitiçadas. Suggia, mais do que aplaudida, é aclamada.

Suggia provoca, em geral, sentimentos extremos porque ela própria é de uma impenetrabilidade de aço ou de uma generosidade sem par. Pode ser efusiva, rir alto, ser extravagante, mas também recolher-se até à nostalgia, ser silenciosa e austera.


No Porto, dizem que é uma Inglesa excêntrica, que gosta de usar palavras estrangeiras na conversação, afastando-se ostensivamente quando alguém espirra. Tem um sentido de humor Britânico que exercita nos circuitos sociais. Ao contrário das senhoras da cidade do Porto, Guilhermina Suggia joga tênis, pratica remo e natação. Muitas vezes é ela que conduz o seu Renault preto, dispensando o motorista. Em Leça da Palmeira, alugou uma casa para estudar. Leva um dos cães consigo, Mona ou Sandy e o violoncelo.


Durante a Guerra, Suggia permanece mais em Portugal, e no Porto solicitam a sua participação em concertos para angariar fundos humanitários. No final dos anos 40, o encontro de Suggia com Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, diretora do Conservatório de Música do Porto, tem conseqüências para a vida musical da cidade: a formação da Orquestra Sinfônica do Conservatório, integrando alunos finalistas dessa escola, a que a diretora chamava carinhosamente o “viveiro”.


Suggia apoiou o naipe de violoncelos e foi solista no concerto de apresentação da Orquestra, na noite de 21 de Junho de 1948, no Teatro Rivoli. Tocou o Concerto de Saint-Saëns e Kol Nidrei de Max Bruch. Dos seus alunos – Pilar Torres, Madalena Moreira de Sá e Costa, Isabel Millet, Maria Beires, Maria Alice Ferreira, Celso de Carvalho, Filipe Loriente, Carlos de Figueiredo, Amaryllis Fleming, Audrey Rainier, Jean Marcel – tinha uma intuição muito lúcida quanto ao papel que desempenhariam na música enquanto Cellistas.


É preciso suportar os bastidores e saber que “para tocar queimamos os nossos nervos”, dizia aos seus discípulos, que nunca aceitou em grande número.


Em 1949, Suggia com sinais visíveis de doença, tem a corajosa iniciativa de criar o Trio do Porto, constituído por ela, pelo Violinista Henri Mouton e pelo violetista François Broos. É neste período dos anos 40 que Suggia reforça os laços musicais com compositores e intérpretes Portugueses, tocando no Porto, em Lisboa, Aveiro, Viana do Castelo, Braga, Viseu... muitas vezes a convite do Círculo de Cultura Musical dessas cidades. Em 31 de Maio de 1950 toca pela última vez em público, num recital no Teatro Aveirense, para os sócios do Círculo de Cultura Musical de Aveiro, acompanhada ao piano por Maria Adelaide de Freitas Gonçalves. Foi o seu último êxito. Regressa ao Porto conduzida pelo motorista, com o carro cheio de flores. A viagem à América, tão desejada e já programada, não se realizará.


Visando distinguir o melhor aluno do Curso Superior de Violoncelo do Conservatório de Música do Porto é instituído por vontade testamentária da violoncelista o Prêmio Guilhermina Suggia, atribuído pela primeira vez em 1953.


Igualmente em cumprimento de disposição testamentária é instituído a partir de 1951 o Prêmio Guilhermina Suggia a atribuir pela Royal Academy of Music de Londres com o principal objetivo de incentivar os violoncelistas com perfil de intérpretes a solo a dedicarem-se a um período especial de pós-graduação.


Guilhermina Suggia tinha vários violoncelos. Entre eles destacam-se os famosos Stradivarius (Cremona, 1717) e Montagnana (Cremona, supostamente em 1700; na etiqueta o terceiro algarismo não está completamente legível, embora se assemelhe a um zero). Suggia fez poucas gravações. Para além das gravações existentes em 78 rotações, está atualmente disponível no mercado o CD “Guilhermina Suggia plays Haydn, Bruch, Lalo,” .


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2 comentários:

Santa Cecilia disse...

Deu-me água na boca para ouvi-la... quem dera que houvesse uma gravação impecável de Suggia.

Amanda disse...

Cara, quero te parabenizar pela quantidade de coisas boas q vc pôs aqui =D Nossos gostos se batem, adoro seu blog! Adoro cellos ^_^

=*